O que o rio pode nos ensinar?
Existem muitas maneiras de iniciar um texto e de contar uma história. Pode ser descrevendo as cenas, construindo uma narrativa, apresentando os personagens, no meio de um diálogo, no ápice da história ou em um momento qualquer. Na pesquisa, também há diferentes maneiras de iniciá-la. Pode ser relatando os fatos ocorridos, apresentando os dados levantados, os resultados obtidos da forma mais direta e objetiva possível. E como precisar a gênese de uma pesquisa? É difícil determinar quando e como ela nasce, ainda que sejam estabelecidas normas para assegurar certa linearidade e constância. A todo momento – pesquisa e pesquisador –, são surpreendidos por acontecimentos que alteram suas rotas, apontando para outras e novas direções. E aos poucos ela vai adentrando em outros lugares, abrindo e fechando portas, criando e abandonando possibilidades, remando no fluxo ou no contrafluxo investigativo e sempre enfrentando o desconhecido. Entretanto, quando se trata de uma pesquisa em educação em artes visuais – e não apenas – é necessário criar estratégias metodológicas que possam combinar teorias e práticas artísticas às políticas educacionais, com as especificidades e diferenças desses contextos.
Ainda mais desafiador do que fazer pesquisa é ter o rio como objeto de estudo nesta investigação de doutorado na linha de Ensino das Artes Visuais do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade do Estado de Santa Catarina, PPGAV/UDESC. Nesse sentido é que trago uma pergunta para atravessar todo o texto: o que o rio pode nos ensinar? Esse questionamento não o faço apenas a mim, mas também a todos e a todas que se permitem aprender como parte do meio em que vivem. É apenas a primeira pergunta dentre tantas outras que surgiram a partir do enfrentamento com o rio e que trago ao longo do texto para gerar novos diálogos.
Para falar, escrever e pensar sobre um rio é preciso deixar claro qual a concepção que trago para elucidar toda a pesquisa. A imagem deste rio que utilizo está para além da visão utilitarista de um recurso hídrico, econômico, a serviço das necessidades humanas ou relacionado à conservação suprema de uma ecologia maior1. Trago o rio como referencial poético, que atravessa os sujeitos que habitam suas margens e que é capaz de movimentar processos subjetivos, artísticos e estéticos. O rio como seres ancestrais2, que já estavam aqui antes da nossa chegada e que habitam este mundo de diferentes formas.
1 GODOY, Ana. A menor das ecologias. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008.
2 KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. São Paulo: Companhia das letras, 2022.
O rio como memória e como sujeito, com suas temporalidades, características e nuances intrínsecas a um lugar. Por vezes, o elemento rio será abordado de forma genérica, fazendo referência a todos os rios, mas sempre haverá por trás a imagem de um único rio, o Rio Manoel Alves. Este que trago das minhas raízes crianceiras, as aprendizagens comungante e oblíqua das coisas vividas, como um lugar perdido onde havia transfusão da natureza e da comunhão com ela3. Pois, segundo Krenak (2022), são nestes primeiros anos de existência que fazemos nossa cartografia de mundo, que servirá como uma espécie de mapa que orientará nossa experiência na vida adulta. Rios que encontro em Manoel de Barros, em João Cabral de Melo Neto, em Cecilia Vicuña, em Jorge Drexler, em Maria Bethânia, em João Guimarães Rosa, em coletivo Rios (in)visíveis, em Mário Quintana, em Caetano Veloso, em coletivo Garapa, em Isabela Prado, em tantas outras pesquisas e produções conhecidas e tantas outras ainda por descobrir. São também como rios que encontro e que vão seguindo comigo.
O Rio Manoel Alves está localizado na região do extremo sul de Santa Catarina. Tem sua nascente no município de Morro Grande, passa pelo município de Meleiro e se encontra com o Rio Mãe Luzia para compor a Bacia Hidrográfica do Rio Araranguá. São fotografias, lendas, lembranças e histórias que deságuam em escritos, experimentos artísticos e pedagógicos. A oportunidade de realizar estes experimentos é também uma experimentação sobre mim, que questiono e invento novos modos de fazer, favorecendo a abordagem e o pensamento sobre o que é e como é o rio.
3 Trecho retirado do conto “Sobre importâncias” de Manoel de Barros, no livro “Memórias Inventadas: a segunda infância” (2006).
Ao despontar o rio pelas nascentes, pelas bordas, pelos afluentes na busca por respostas, encontro caminhos possíveis de serem cartografados. Pois não existe apenas uma possibilidade de adentrar nesta aguagem miúda, que comunica por meio de seus baques, modos moles e sussurros de desamparo4. Para chegar nesse local foi preciso abrir a passagem com o uso de ferramentas como o facão e a coragem. E ao abrir essa trilha com a força e o desejo de acessar outras margens, foi necessário deixar alguns pertences pelo trajeto para reconhecer o caminho da volta, como quando adentrei a mata ciliar pelo lado do município de Maracajá (SC) para tentar acessar o encontro do Rio Manoel Alves com o Rio Mãe Luzia. Por ser um local remoto, o acesso à margem foi bem difícil. Deixei o carro em uma estrada em meio as granjas de arroz e fui caminhando até chegar a mata ciliar. O primeiro desafio foi encontrar uma cerca de choque elétrico separando o lado das granjas de arroz com o lado da mata. Após encontrar um local para pular a cerca, deparei-me com uma vegetação fechada, praticamente sem aberturas. Foi nesse momento que peguei o facão e comecei a abrir a trilha, e conforme ia avançando, percebia o perigo que estava correndo em não encontrar o caminho da volta. Então resolvi dobrar e amarrar algumas vegetações para marcar o caminho e também deixei algumas coisas penduradas, como chapéu e camisa. Essas foram minhas referências para sair daquele local. Quando consegui acessar o ponto mais próximo do encontro dos rios, havia um barranco íngreme e cheio de vegetação espinhosa. O medo de me machucar com os espinhos, de despencar barranco abaixo, de encontrar algum animal peçonhento, somado ao horário de final de tarde em que o sol estava se pondo e fazendo a contraluz, resultou nas piores fotografias feitas em todo o percurso do rio.
Situações como essa, que não tem roteiro e que nem podem ser previstas ao analisar os mapas, são resultantes das cartografias que movidas pelo desejo de descobrir novos percursos, são desenhadas conforme o passo é dado. Com este funcionamento de uma pesquisa que experimenta no pensamento e na vida, encontros que aproximam o rio com as pessoas e as coisas, o conceito de ecosofia é que permeia e conjuga todos os capítulos para um saber transversal e subjetivo. “Mais do que nunca a natureza não pode ser separada da cultura, e precisamos aprender a pensar ‘transversalmente’ as interações entre ecossistemas, mecanosfera e Universos de referência sociais e individuais” (Guattari, 2012, p. 25). O conceito de ecosofia pressupõe que novas práticas ético-políticas e estéticas devam substituir as antigas formas de engajamento religioso, político e associativo, pois a ecosofia não pode ser executado em si mesmo. Há de se compor com ele e entre ele, para então inventar os próprios modos de operá-lo e possibilitar que sua potência máxima seja alcançada.
A partir dessa conjuntura, a tese será exposta em duas partes: os Movimentos Conceituais e os Movimentos Fluviais. O primeiro abordará os movimentos conceituais presentes no contexto educacional, como um repertório de fundamentações para a produção do que chamo de pedagogia do rio. O segundo movimento abordará os pensamentos fluviais do rio pelas subjetividades e pela criação. É no tensionamento desses dois movimentos que ocorre o encontro entre as ecologias terrenas e as ecologias subjetivas de Gaia Educação5, como um conjunto de práticas capazes de questionar os valores entre o que os seres humanos fazem com a terra e o que ela nos oferece. A Pedagogia do Rio é um projeto que visa articular a ecologia social, a ecologia mental e a ecologia ambiental sob a perspectiva da transversalidade que abrange o campo da educação.
4 ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. São Paulo: Companhia das letras, 2019.
5 Referência ao livro Gaia Educação: arte e filosofia da diferença de Paola Zordan (2019), que tem no plano conceitual, a intenção de provocar práticas geoeducacionais.
Dos Movimentos Conceituais, o primeiro a ser cartografado foi a Ecosofia ou Movimentos intensivos com o rio, que classifica e articula as três ecologias definidas por Félix Guattari em: o meio ambiente, as relações sociais e a subjetividade humana. O filósofo denomina a relação dessas três áreas como ecosofia por entender que cada parte tem em comum o campo ético-estético ao mesmo tempo em que tem suas próprias práticas que as caracterizam. Tais questões são abordadas no livro As três ecologias (Guattari, 2012), no qual o autor desenvolve sua teoria sobre os paradigmas estéticos com base nos problemas ecológicos.
A ecosofia é tida não como uma resposta de preservação da natureza diante dos desastres ambientais, mas reflete como o futuro da humanidade se encontra no processo contínuo de ressingularização do indivíduo e que a autopreservação do ser humano e do planeta se dá pela retomada da subjetividade. Além da ecosofia, esse movimento se faz com o conceito de geofilosofia de Deleuze e Guattari (2010) e da Gaia Educação de Paola Zordan (2019). Neste primeiro movimento conceitual que inaugura o que venho chamar de Pedagogia do Rio, atravessando também todas as demais partes da pesquisa, o rio é um fio condutor para experimentar práticas artísticas que associam a formação ética-estética do sujeito pela sua ressingularização.
O segundo movimento conceitual pesquisado foi a transversalidade e a sua inserção na educação por meio de leis e de diretrizes sancionadas pelo governo federal, somadas ao desenvolvimento teórico da filosofia da educação e os indicativos de sua operacionalização no contexto escolar. Foi analisada a inserção e o uso da transversalidade nos documentos como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), Lei nº 9.394, de 1996; os Parâmetros Curriculares Nacional (PCNs), de 1997; e na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), de 2017, a partir de estudos realizados por Silvio Gallo e Sandra Mara Corazza, entre outros autores. Neste texto que chamo de Transversalidade ou Como ter uma aula-rio, discute-se sobre o tema, a sua relação com o currículo escolar, a noção de disciplina, para então desfragmentar e conceder espaço ao currículo-rio, para que ele possa problematizar essa estrutura e desenvolver a transversalidade dos saberes.
O terceiro movimento conceitual é sobre a Cartografia ou o Margear de uma pesquisadora enquanto um mapeamento dos movimentos desejantes que tocam e modificam os sujeitos em uma sociedade. Pertencente ao primeiro conceito criado pelos filósofos Deleuze e Guattari (2011), o rizoma é a imagem da botânica utilizada para pensar um modelo de organização da multiplicidade. A cartografia sendo um dos princípios do rizoma, parte da ação do mapeamento dos modos de vida, dos processos e dos desejos que constroem novos trajetos e dão espaço para as diferenças e para o que ainda está por vir. Sendo também um processo metodológico e de criação, a cartografia nesta pesquisa passa a ser uma ferramenta de mapeamento que analisa os interesses de um corpo-vibrátil de Suely Rolnik (2016), que explora territórios desconhecidos de um corpo sensível aos efeitos do encontro. Nesse conjunto de temas que envolvem a cartografia, trago o margear como movimento atencional de um corpo-rio que desenvolve práticas e estratégias para a produção de dados nesta pesquisa cartográfica.
Embora uma cartografia permaneça sempre inacabada, esta experimentação buscou pelos fluxos e intensidades do rio como propulsores de deslocamentos os territórios da educação e da arte. Trazer os caminhos percorridos ao longo desta pesquisa não intenta apontar o local da chegada ou a conclusão, mas investigar as subjetividades que dão forma a certas escolhas. Ao ser contaminada pelas distintas maneiras de conhecer um território, atravessando conceitos, teorias e práticas, foi possível construir uma pesquisa que além de referenciar autores e artistas também cria com eles uma forma de experienciar os processos educacionais apresentados pelo rio.
O quarto movimento conceitual é sobre o devir enquanto abertura de uma forma humana para modos não humanos de individuação e de experimentação da vida. O objetivo do devir é de criar a partir da junção de duas partes diferentes – um corpo e alguma outra coisa – novos territórios em que possam existir sem que caiam nas representações sociais banalizadas. Nesse caso, o devir-rio que em uma dupla captura entre sujeito e rio não quer imitar ou assimilar um com o outro, e sim convergir as duas partes para uma mesma direção. E quais as implicações desse encontro? O que cabe neste capítulo em que nomeio de Devir-rio ou Dissolução entre corpo e água não é tratar do encontro entre um sujeito e um rio. Trata-se das forças invisíveis que acontecem a partir desse encontro: um abandono da margem para mergulhar e ser o próprio rio. Neste capítulo apresento pela escrita com palavras, paisagens e sensações, as transformações do percurso marcadas pelas temporalidades que compõem as subcamadas do tempo Aion, o tempo do acontecimento.
Neste primeiro bloco, os movimentos retomam alguns temas que fazem parte do campo educacional a fim de mapeá-los historicamente, conceitualmente e filosoficamente, para entendê-los e, sobretudo, para problematizá-los como forças maiores, responsáveis muitas vezes por engessar as estruturas sociais em que vivemos. Os Movimentos Conceituais foram desenvolvidos para responder as perguntas que não param de cessar com os encontros entre sujeito e rio, rio e sujeito. Inspirado pela filosofia de Gilles Deleuze e Félix Guattari (2010), o conceito é composto por fragmentos e serve para sair do caos mental que um problema pode gerar. Por esse motivo que todo conceito remete a um problema e só pode ser compreendido na medida em que é resolvido ou então, experimentado. Não são criações vindas do nada, ideias gerais ou abstratas. Os conceitos são criações fundamentadas em outros conceitos, porém ao operar um novo corte, assume outros contornos e sentidos.
Por motivos pré-fabricados em educação, por buscar novas relações entre os elementos e teorias pesquisadas e por outros motivos não subjugados, é que escrevo a segunda parte da pesquisa, ao qual chamo de Movimentos Fluviais, em formato de cartas. São cartas escritas por alguém que se propõe a comunicar algo e que convidam o leitor a conhecer a pesquisa e, sobretudo, pensar com ela. São cartas abertas, endereçadas, que apresentam, questionam e narram por meio de perceptos e afectos, como os fundamentos instaurados ao longo do tempo, são ameaçadores para as experiências, subjetividades, formas de existir e reexistir em determinados contextos.
Como um registro daquilo que se conserva dos encontros entre sujeito e rio, as cartas são um bloco de sensações provenientes dos perceptos de quem experimenta esse encontro e dos afectos que são como as inundações provocadas pelas sensações. Deleuze e Guattari (2010), ao tratar das partes que integram o bloco de sensação, colocam a arte como responsável por alcançar, pelas suas linguagens, uma composição entre pensamentos e sensações. Para os autores, o artista é quem inventa e cria os blocos de perceptos, sendo estes independentes do estado de quem experimenta, e os afectos, que além de sentimentos são transbordamentos das forças de quem é atravessado pelos perceptos, excedendo qualquer vivido. “Pintamos, esculpimos, compomos, escrevemos com sensações. Pintamos, esculpimos, compomos, escrevemos sensações” (Deleuze; Guattari, 2010, p. 196). As sensações não se remetem a um objeto, não se aproximam de algo por semelhança, realizam-se no material utilizado pelo artista quando este consegue arrancar o percepto das percepções de um objeto, sujeito ou situação, e o afecto das afecções como passagem de um estado a outro. Como o escritor que se serve de palavras e que cria uma sintaxe que as introduz na sensação, “que faz gaguejar a língua corrente, ou tremer, ou gritar, ou mesmo cantar: é o estilo, o ‘tom’, a linguagem das sensações ou a língua estrangeira na língua [...]” (Deleuze; Guattari, 2010, p. 208). Muito mais que um gênero literário, as cartas fabulam mundos, carregam memórias, estão abertas ao diálogo e deixam uma mensagem para outro tempo como uma duração, pois cartas sempre são escritas no presente com a intenção de que sejam lidas no futuro.
Pode parecer prepotência, vaidade ou incoerência, debruçar-se em uma pesquisa que tem muitas perguntas e que não objetiva trazer apenas uma resposta. É uma condição de movimento contínuo das águas, pois as respostas não se mostram com as circunstâncias de uma rota, e sim nas direções variáveis que não param de cessar. Propor-se a pesquisar sobre o que não se sabe e ainda convidar o leitor a acompanhar os meandros de pensar uma escrita-pesquisa-ensaísta no meu doutorado exige, de certa forma, coragem para fabular junto ao rio, um outro modo de criar e aprender e ensinar e lembrar e...
Nas cartas desfiladas, há caminhos percorridos e recomendados, há pistas para iniciar novos caminhos e há indícios de trilhas a serem abertas com foice, enxada, livros e conversas. São ferramentas que proporcionam pelas referências contidas num livro, as relações inusitadas entre o labor de pesquisar na prática, as intelectualidades que não findam na vida acadêmica, mas que se abrem para conversas, escritas, músicas e criação em arte. Pode ser que com essa aproximação seja possível reorganizar os conhecimentos passíveis de acumulação para propor um novo olhar sobre as mesmas coisas e os conteúdos já existentes.
As cartas! A primeira é para o protagonista desta pesquisa, Carta ao Rio Manoel Alves. Este que desde a sua nascente fala mais sobre as pessoas e os modos de uso de suas águas do que de si próprio. Suas águas represadas, desviadas, encardidas e até envenenadas passam silenciosamente pelas cidades saciando a sede da terra e da gente. Escrevo essa carta para um rio ao qual visito constantemente, seja presencialmente como lugar de estudo e criação ou como memória onde ocupa espaço em um tempo que não volta mais. São também, antes de tudo, recortes de um diálogo que se formaram ao longo desses quatro anos de pesquisa explorando o tema e que se apropriou das cartografias afetivas6 para dar corpo e voz ao rio contar suas próprias histórias que atravessam um passado colonialista e um presente preso às estruturas de um sistema político neoliberal.
A segunda carta tem como objetivo chegar ao espaço institucional destinado ao desenvolvimento social, cultural e cognitivo dos seres humanos: a escola. Um convite para pensar sobre a origem desse espaço, as apropriações e as possibilidades de ocupações. A Carta a escola, tal como um agenciamento, propõe uma pausa para o que atravessa esse espaço, para o que configura uma aula, para os movimentos menores e as micropolíticas7 que fazem parte do mundo da educação. Junto a ela, estão os profissionais que atuam nesses espaços educacionais: os/as professores. Corpos docentes, esses que estudam, pensam, planejam, conversam, recortam e colam seus planejamentos, e que deveriam seguir o conselho de Carlos Skliar (2014) e sair de excursão pelo mundo, para ensinar o que não sabem. Neste mesmo endereço, esta carta também pretende chegar às mãos, aos olhos e ao corpo dos alunos. Corpos discentes, que muitas vezes ocupam um lugar por obrigação do estado e da família, e que estão esvaziados de sentidos no exercício acumulativo que tem sido o estudar. Mas além desses destinatários, o convite também se direciona aos estudantes autodidatas que pelo conceito ontológico do estudar desenvolvem suas maneiras de estar no mundo.
A terceira carta é destinada ao imaginário aquático da arte enquanto linguagem das sensações8 que habita a criação musical, literária, cênica e visual. São tantas canções, são tantos registros, são tantos poemas, cores e sons criados que falam sobre o rio de desejos e de emoções de modo a integrar nossas práticas cotidianas às narrativas poéticas e críticas dos artistas. Nesta Carta ao Imaginário Aquático, considero ser possível trazer um recorte sobre como o mesmo tema tem diferentes modos de ser abordado. Pois, independente da linguagem, a arte expressa visões diversas do mundo, questiona e critica o que está dado a partir de uma ótica espacial. Como confidentes, artistas e rio criam sobre a “asa da palavra, onde o silêncio mora” (Veloso, 1992). São potências por vir que essas obras trazem, que se atualizam à medida que acontece o encontro entre obra, sujeito e processos de subjetivação.
6 PEREIRA, Juliana Cristina. Cartografias afetivas: Proposições do professor-artista-cartógrafo-etc. 2016. Tese (Doutorado em Educação) – Centro de Ciências da Educação, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2016.
7 Gilles Deleuze & Félix Guattari. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. V3. Rio e janeiro: Editora 34, 1996.
8 DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O que é a filosofia? São Paulo: Editora 34. 2010.
A opção de adaptar a estrutura da carta para escrever este segundo movimento, com todos seus elementos formativos – data, vocativo, mensagem, despedida –, deu-se pelo intuito de fabular junto ao rio, um modo de conceder espaços para diálogos e inserir o sujeito nas três esferas da ecosofia elaboradas por Guattari: as esferas sociais, políticas e subjetivas. São cartas para o rio, para professores, escolas, alunos, poetas, músicos, artistas e todos aqueles que fazem caber no lugar comum do seu dia a dia um olhar cuidadoso para o modo de existir criativo com disposição para reinventar e ressignificar cotidianos.
Assim como a fluidez das águas, que comunicam mesmo que pareçam caladas, cada conceito e cada carta que compõem a primeira e a segunda parte do texto respectivamente, estruturam os capítulos da pesquisa e sua leitura pode ser iniciada de forma independente, ficando a critério do leitor iniciar por qualquer uma delas. Como um rizoma que tem múltiplas entradas e saídas, com conteúdos que se conectam e se bifurcam em diferentes direções.
Permeando esses dois movimentos, trago ideias, percepções, memórias e experiências acumuladas por meio de produções artística desenvolvidas nos últimos quatro anos que não querem buscar por uma tradução da pesquisa teórica, mas evidenciar os processos experienciais de conhecer o mundo e seu entorno para então aprender e criar com ele. Esta experimentação artística fez uso de diferentes linguagens, como: o livro Lugar de Passagem: uma história contada por Manoel Alves (2021), com fotografias do rio e um conto literário; um vídeo homônimo contendo a narrativa deste conto e imagens do percurso como recurso de acessibilidade; o documentário Atravessamentos: memórias do Rio Manoel Alves (2022), com entrevistas de moradores de Meleiro e de Morro Grande; vídeos Palavras marcadas (2022), que registram o momento de marcação de palavras em pedras; Cartão-postal (2022), com imagens das pedras gravadas e inseridas na paisagem do rio; Poemas (2022) que registram a leitura de poesias criadas pelos participantes do documentário; a publicação Glossá-rio (2023), que pesquisa e organiza palavras da língua portuguesa que têm o “rio” passando pelo seu meio ou pelas suas bordas. O que cabe em cada uma destas dessas criações é inventar mundos que sejam capazes de questionar as convicções e as certezas construídas historicamente para mobilizar as intensidades presentes no percurso do rio. Como força motriz, trago outros artistas e escritores que têm essa intensidade de desejar fazer ruir os projetos maiores e genéricos de uso e de relação do rio com as pessoas, para permitir que a vida e a subjetividade passem a procura da ecologia menor.
Por se tratar de produções de audiovisuais, fotografias e documentos digitais, foi preciso encontrar meios que pudessem agrupar esse conjunto da pesquisa e disponibilizá-la para além do formato tradicional de um trabalho acadêmico. Outro fator que contribuiu para a busca por um formato mais atraente foi o desejo de tornar acessível todo material produzido para aqueles que moram nas margens do Rio Manoel Alves e também de outros rios. Na época da idealização do livro Lugar de Passagem: uma história contada por Manoel Alves e, posteriormente no documentário Atravessamentos: memórias sobre o Rio Manoel Alves, já existia o desejo de disponibilizar esses trabalhos como recursos pedagógicos. Os livros publicados foram entregues nas escolas e a apresentação do projeto e a exibição do documentário foram expostos em reuniões pedagógicas na presença de professores e de gestores locais, como também foram organizados momentos de exibição e de conversas com os alunos.
Gerada por essa força motriz de tornar a pesquisa acessível e de que as cartas chegassem aos seus destinatários é que optei pela construção de um endereço eletrônico para quiçá mobilizar outros movimentos afectivos e intelectuais com e sobre o rio. Disponível no endereço eletrônico www.pedagogiadorio.com.br, todo material foi pensado e organizado para se conectar em diferentes pontos, tornando a sua navegação mais intuitiva. A utilização de uma linguagem e de uma apresentação um tanto incompatível com o esperado para o meio acadêmico, em que as pesquisas parecem vir acompanhadas com uma espécie de sombra do esquecimento ao serem depositadas nos repositórios digitais da biblioteca, são recursos utilizados para tentar subverter essa lógica da academia e tornar o conhecimento acessível.
A Pedagogia do Rio é uma pesquisa que acontece pela perspectiva da geofilosofia de Deleuze e Guattari (2010), que abandona a ideia de filosofia como reflexão e contemplação focada no sujeito e no objeto, para abrir-se à Terra e à maneira como seus movimentos sucedem a nossa presença, ou seja, um pensar sobre as condições de um meio social geográfico. “Agir contra o passado, e assim sobre o presente, em favor (eu espero) de um porvir – mas o porvir não é um futuro da história, mesmo utópico, é o infinito agora […] não um instante, mas um devir” (Deleuze; Guattari, 2010, p. 135). Assim, entre os Movimentos Conceituais e os Movimentos Fluviais que formam esta tese e que conjugam o nós em nós-rio, surge o devir-água em sua potência de tomar diferentes caminhos e de pensar a relação entre ser humano e terra. Esses são, portanto, os meios escolhidos que puderam tornar visíveis todos os processos de escutas, diálogos, registros e escritas com e sobre o Rio Manoel Alves.
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. v. 1. Tradução: Ana Lúcia de Oliveira, Aurélio Guerra Neto e Célia Pinto Costa. São Paulo: Editora 34, 2011.
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. O que é a filosofia? São Paulo: Editora 34, 2010.
GUATTARI, Félix. As três ecologias. Tradução: Maria Cristina F. Bitencourt; revisão da tradução: Suely Rolnik. 21 ed. Campinas: Papirus, 2012.
KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
ROLNIK, Suely. Cartografia sentimental: transformações contemporâneas do desejo. Porto Alegre: Sulina; Editora UFRGS, 2016.
SKLIAR, Carlos. O ensinar enquanto travessia: linguagens, leituras, escritas e alteridades para uma poética da educação. Salvador: EDUFBA, 2014.
VELOSO, Caetano. Circuladô ao Vivo. Universal, 1992. Faixa 10.
ZORDAN, Paola. Gaia Educação: arte e filosofia da diferença. Curitiba: Apris, 2019.