Meleiro, primavera de 2023.
(É noite)
Sr. Rio Manoel Alves
Encaminho esta carta esperançosa de que ela chegue a tempo de lhe encontrar com vida. Desculpe a sinceridade, falando assim parece que você é um velho abandonado, que já não serve mais para muita coisa. Mas de certa forma, isso não deixa de ser verdade! Vejo o descaso, abandono e servidão a que você foi submetido. Todas as sucessões de mudanças que existem ao longo do seu caminho, foram transformadas em serventia para alguém ou para alguma coisa. São tantas qualidades, propriedades, belezas, sabedorias, adjetivos, que sob uma lente utilitarista, viraram apenas recurso! Atenta a miséria e supremacia que sua presença representa, pois, sua imagem está conectada pelos modos como o ser humano se desenvolveu agredindo suas águas, vou me aventurar a trazer em palavras e imagens, um pouco do que seus mistérios empreenderam sobre mim.
Mas antes, preciso admitir que existe um certa (im)possibilidade de diálogo ao endereçar uma carta a um rio. Seria mesmo isto uma carta? Seria uma carta escrita em tradições e racionalidades pedagógicas? Ou seria uma carta escrita com a possibilidade de tocar o limite da linguagem e de encravar suas metáforas¹? Cartas expressam em palavras os instantes vividos, as aventuras em áreas de risco, os aprendizados de cada meandro, os desejos que ditam o fluxo e intensidade do movimento. Escritas (im)precisas que se destinam a encontrar outros olhares, a adentrar em outros territórios, a buscar outras experiências capazes de rachar o cotidiano da educação. Escritas que não explicam, que não traduzem e que não determinam, mas que tentam provocar enchentes de gente, de existências e de pensamentos. Por isso pergunto: então, qual escrita se faz possível na ausência de palavras? O desejo de encontrar respostas em suas margens, cravou palavras em suas pedras e buscou por seus meandros, uma escrita encharcada de realidade vivida, sonhada e criada. Pois tudo o que não invento é falso², e pela sua voz inenfática, construí este diálogo sobre seus conteúdos.
Bom dia, Manoel Alves!
Já tem alguns anos que meu primeiro bom dia do dia é para você. Assim, com nome e sobrenome, você se personifica e simboliza os modos de vida que estão a sua margem e, também, fala, como quem pede socorro.
Compartilho com Krenak³ que nossos amigos de jornada podem ser tudo aquilo que invocamos como devir. São possibilidades de se construir constantemente enquanto sujeito e até enquanto coisa. Movimento permanente que se transforma a cada mudança, a cada pedra, bicho, planta que trazes, e a cada alteração advinda da chuva, da seca e dos dejetos.
O cumprimento acontece na maior parte das vezes, quando estou a passar por pontes que atravessam sobre suas águas, ligando uma margem a outra. São trechos que apesar de serem curtos, permitem o enfrentamento real do corpo-e-a-água com os sintomas visuais sobre a pergunta: tudo bem? Pergunta inconveniente, feita por respeito e consideração a quem já teve uma história a que se orgulhar. Reflexos que anunciam a morte por envenenamento, olho suas águas contaminadas e vejo meu rosto inebriado pelo alimento também contaminado. Não estamos indo bem Sr. Rio. Nada bem!
Nesta rotina corriqueira que insiste em engolir nossos desejos inventivos, você se esforça em fluir e desenhar seu curso, atravessando estas cidades que decidiram manejar suas águas em prol de uma economia. Como forma de regulamentar tais práticas, outorgaram4 seu uso para matar a sede infinita de uma produção. Caso não saiba, desde o ano 2016, você foi presenteado com a implementação de um projeto piloto do estado de Santa Catarina, que concede com a retirada das suas águas para o setor irrigante. Meleiro, uma cidade que pelos seus representantes e moradores, decidiram se apropriar do rio e se acostumaram com a quantidade de bombas drenando suas águas para as plantações de arroz espalhadas ao longo do seu percurso. Mas deixamos estes assuntos delicados, quase proibidos de serem tocados, para depois. Vamos antes revisitar nossas memórias primeiras para acalentar e quiçá, divertirmo-nos com esta conversa Sr. Rio.
Primeiro peço licença para te chamar assim, de senhor, pois embora a temporalidade seja um dos seus mistérios, de conter aquele rio criança pequena, de passar pelas aventuras e desafios da vida adulta e chegar na velhice, você estava aqui quando sequer imaginávamos compartilhar o mesmo espaço. É por formalidade instituída socialmente; é por educação de quem já avançou algumas etapas da escolarização - ainda que permaneça em estado de eterna aprendiz-; é por respeito a sua história; é por admiração a sua sabedoria ancestral e pela sua capacidade de mudar de rumo que lhe chamo de Senhor.
De seus apelidos populares, Mané Larve é o mais comum, e confesso que não gosto, tão pouco utilizo. Prefiro a pronúncia, entonação e grafia que seu nome oferece. Contam que seu batismo se deu em homenagem a um agrimensor prático que foi encontrado sem vida em suas margens, mas, para este fato, não há registros. Tal episódio, já está no livro Lugar de Passagem: uma história contada por Manoel Alves5, onde sua história, seu percurso, seus usos ao longo do tempo, junto aos detalhes contidos em suas margens, foram trazidos em forma de conto literário. A escrita do livro que nasceu de um interesse pessoal, se fez coletiva por alcançar as escolas dos municípios que avizinham suas margens - Meleiro e Morro Grande/SC. Foi um período que se deu entre mergulhos em suas águas, deslocamento entre as escolas para a entrega dos livros, entre conversas com professores e alunos, de apresentação sobre a execução, de questionamentos sobre o interesse pelo tema e de surpresas com as histórias escondidas sob suas pedras.
Para além do seu nome, também me intriga saber os critérios utilizados para batizar seus afluentes. Rio Seco, Rio Tajuva, Rio Forquilha, Rio Pingador, Rio Camargo, todos estes compartilham o seu local de nascimento em meio as árvores e ar puro. Dos teus lugares, estes são os que mais desejo voltar. Ainda tenho em mim, o momento que o sol, ao irromper a vegetação, cria uma atmosfera inebriante com luminosidade acinzentada que alterna entre claro e escuro. Ou quando você é atravessado por feixes de luz, fazendo suas águas cintilarem. Paisagens que fabulam lugares a serem sempre frequentados.
Seguindo seu curso, junto com o encontro do Rio Morto, seu cenário já está bem modificado. O acesso a este ponto, tem gosto de laranja kinkan e carambola. E tem lembrança de botas cheia de água numa tarde de inverno. Foi meu avô quem me levou para este lugar, disse conhecer os proprietários das terras que dão acesso a este ponto, e por isso se fez presente nesta saída. Atravessei uma pinguela, pulei cerca, caminhei pelas taipas, até que cheguei e me deparei com a união de suas águas translúcidas com as águas barrosas do Rio Morto. Desci o barranco, me embrenhei aos lírios do brejo que escondiam uma camada de água sob seus rizomas e fotografei este encontro. Voltamos, eu e meu avô, eu com fotos e ele ovos de pata.
O último dos seus encontros é com o Rio Mãe Luzia, este que vem de outro braço da serra trazendo tantos outros rios menores. Aqui já és afluente cansado com o trajeto, com o alargamento, com a poluição e até com a esperança. E com toda razão! Foi aqui que encontrei, ao caminhar pelas suas margens enquanto procurava um bom lugar para fotografar, as carcaças de gado apodrecidas a céu abeto.
Mas se tem uma coisa que ainda me instiga são as origens de todos estes nomes mencionados. Fico imaginando as histórias escondidas por trás de cada nomeação, sendo que já haviam outros povos habitando a região antes da chegada dos colonizadores. E diante disso, é muito provável que o senhor já tenha tido outros nomes! É antiga esta prática que se diz soberana e, doa a quem doer, de nomear lugares, pessoas, gestos, coisas e tudo o que se vê pela frente. Inclusive Meleiro, cidade que carrega em seu nome a lembrança de um período povoado por insetos polinizadores. Neste lugar que habitamos, essa gente que foi convidada a se retirar de seu país, chegaram aqui para se apropriarem de um território. E aos poucos foram dominando todos os cantos, todos os meios culturais e econômicos.
Este é o processo de denominação que bem disse Bispo dos Santos6, que começa com a desterritorialização de um ente pela troca de seu nome e significados, retirando sua identidade para que sua memória possa ser apagada e substituída por outra. Isto foi feito com lugares, coisas, organismos vivos - animal, vegetal ou espiritual-, ignorando a cosmologia de uma existência compartilhada. Ainda há muito que pesquisar sobre os povos que estavam aqui e como viviam os moradores desta região antes dos colonizadores chegarem.
Esta é uma característica da história, de contar sua versão a partir da perspectiva do vencedor7. Não raro, esse recurso foi usado por muitos, que, independentemente da realidade e verdade dos fatos, quiseram escrever e reescrever a história como bem queriam e imaginavam. Os historiadores afirmam que foi por volta de 18908 quando chegaram os primeiros colonizadores e encontraram a região infestada por tigres e índios. Pois veja bem, são estes os escritos que alimentam o imaginário popular de uma época selvagem, com histórias dos enfrentamentos entre os primeiros moradores com os indígenas, tigres e onças.
Essa gente que vos falo, também é a minha Sr. Rio. Trago nas veias o peso deste passado e o reconhecimento de que tais crimes, não deveriam subir aos palcos e serem motivos de orgulho. Você e toda sua estirpe, foram apropriados indevidamente e instituídos como um direito comum a todos. Mas ainda é possível escutar pelas águas que correm aqui dentro, sonidos que se propagam entre esperança e desejo de circunscrever outras histórias. Como no chamado de Kopenawa9 que inverte a história e convida o branco a ouvir a voz dos xapiri para proteger as florestas. São seres que sobrevivem ao tempo pela continuidade do pensamento e intenção de cuidado, e não por comporem velhos livros contendo a história dos antepassados.
Do lugar em que moro, com horizonte atravessado por casas, alguma vegetação, bichos, pequenas roças de arroz e milho, com esforço e atenção, consigo te escutar do meu quarto e penso se os moradores que habitam suas margens também são capazes de prestar atenção no que você diz. Nestes poucos metros que separam minha residência de seu curso, em dias normais ouço barulhos de motores de máquinas, carros, motos que passam aceleradas pela rodovia, caminhões de argila, madeira, pedras, aves e tantas outras sobrecargas. Ouço sons de aves, gados, galinhas de mais de um tipo, grilos, sapos, anfíbios de várias espécies, de gente, de sino e de tantos outros elementos que compõem esta paisagem sonora que por vezes fica em silêncio repentino, como se estivessem aprontando algo. Por trás de todos estes sons, consigo ouvir seu murmúrio a passar baixinho e tranquilo apesar de tantos desafios.
Já em outros dias, nos períodos de chuvas insistentes, ouço apenas seu ronco como quem passa avisando um estado de fúria e inquietação. Muitas vezes presenciei meu avô indo até você para ver o volume e a força de suas águas após chuvas intensas, e ele sempre voltava para casa perguntando: tu viu como tá o rio? Prática corriqueira que se repete a cada cheia, a cada seca, a cada estado de alerta. Deste lugar que escrevo, você faz parte desta paisagem sonora e visual, que intercambia entre o que é natural e o que é social, e que se altera neste dinamismo mágico ao subir e descer seu fluxo.
Penso como deve ser fazer morada em seu leito, perto da divisão entre terra e água, perto do som, da umidade e da insegurança por acompanhar sua subida em dias de muita chuva, quando demonstra querer adentrar sem pedir licença, em todos os cômodos da casa. Morar no lado de lá da margem, que é o lado da praça, do centro, do comércio, da igreja, onde se tem a passagem das suas águas desmanchando os limites territoriais com as paredes das casas e prédios, deve ser ainda mais tenso. Presumo que ouvir seu canto em volume alto, correndo de forma destemida com seu fluxo volumoso, embaralhando o que é margem e o que é rio, deve ser um tanto angustiante. A linha de pedras, tijolos e concreto, nunca será suficiente para conter tamanha autoridade.
Do outro lado: os rivais. Descobri outro dia que a palavra rival deriva etimologicamente de rio, em latim, rivalis10, aqueles que compartilham do mesmo suprimento de água. Formado por “rivus”, que significa córrego ou riacho, mais o sufixo “alis”, que indica pertencimento ou relação, se tornam rivais aqueles que disputam pelo mesmo córrego, a mesma água. Esta palavra, usada corriqueiramente em seu sentido comum de inimigo, também se enquadra ao individualismo dos atuais modos de vida na contemporaneidade.
Dentre tantas coisas, somos Rio, somos 70% água e juntos compartilhamos a vida no tempo presente. Hoje, ao abrir a torneira, vejo o branco da sua água tratada, dita potável, que exala cloro por todo o ambiente e que amarra a boca daqueles que tentam beber. Resseca pele, cabelo, estômago e coração. Ter água encanada, retirada do seu curso, tratada e redirecionada para nossas residências através de tubulações, é um grande feito da nossa sociedade. Poucas décadas atrás, quem não tinha poço artesiano em casa, precisava buscar a água no rio com baldes ou então armazenava a água da chuva. Tempos de banho com chuveiro de lata e água aquecida no fogão a lenha. A abertura dos furos na lata, era o que determinava o tempo do banho.
Minha vó me contava de quando ela e outras mulheres iam até sua margem com cestos cheios de roupas para, ajoelhadas em seu leito, esfregarem as vestes encardidas de toda a família. Banha de porco, soda e álcool, era a combinação milagrosa da feitura do sabão que passada na roupa e deixada no sol para quarar, garantia roupas brancas e alvejadas. As crianças, coitadas! Esperançosas de encontrarem tempo para banho e brincadeiras, iam junto para ajudar com o cesto de roupa molhada na volta para a casa. Todas as mulheres tinham seu próprio lavador de madeira que sabiamente, ficavam presos por cordas e amarrados nas árvores de sua margem, para assim, não serem mais carregados pelas suas correntezas. Por este fluxo, sabão, lavador e roupa suja, são os itens mais inofensivos que já passaram em seu leito.
Neste tempo de imersão em suas águas, de pesquisas, leituras, conversas e coletas, foi que me dei em conta que pertenço a última geração que se divertiu com os banhos de rio perto de casa. Isto porque moro próximo da metade do seu curso, bem onde os seus meandros escrevem a letra M. Agora, neste trecho, o banho já é arriscado e convém ir até próximo a sua nascente para se banhar. Era programa de domingo em dias quentes, ir até seu leito acompanhada dos pais, irmão, primos e amigos. Depois, já na idade da desobediência, as idas eram com amigas as escondidas. Saíamos de bicicleta, mochila nas costas contendo alguma comida, uma boia comprida e um acordo de estar em casa antes dos pais regressarem do trabalho: a irresponsabilidade tinha a mesma proporção que a prudência.
Sua benção Sr. Rio! Peço proteção para deixar registrado nestas palavras umedecidas pelas boas memórias, o que sinto, o que penso e, sobretudo, o que vejo. E para fazer isso tem que ter um tanto de coragem! Coragem para dar o primeiro passo, para falar de peito aberto que não consinto com tal situação e assim, quem sabe, encontre outros viventes que confluem com estes pensamentos. Não tenho como propósito encontrar um culpado, pois de certa forma, todos somos. Meu propósito é comunicar, questionar e provocar outros pensamentos. Será preciso muito esforço para ter um pouquinho se quer de mudança.
Mas também não nos iludamos que apenas estas palavras salvarão a sua e as nossas vidas, tão pouco todo o esforço feito para chegar até aqui. Dos tempos de criança em que nos encontrávamos para refrescar o corpo nos dias quentes, de catar girino em suas margens e brincar de peixinho com seixos rolados lançados sobre sua superfície, nunca imaginei que hoje, em idade adulta, escreveria uma carta sobre seus conteúdos. Você se lembra das competições para ver quem conseguia lançar a pedra sobre sua superfície e fazer ela pular por várias vezes? Para poder participar do desafio, primeiro tem que saber escolher a pedra, que sem vias de regras, geralmente as melhores são as mais achatadas, leves e arredondadas. Também tinha que saber dominar o movimento do corpo, pois não é só o braço que lança a pedra, todo o corpo trabalha junto.
Dos teus conteúdos, todos estes compõem minha formação. Desejo, caro Manoel, que a vontade de escrever esta carta encontre no ritmo de suas águas, gestos menores11 capazes de transportar suas sensações aos habitantes de suas margens. Gestos menores que desterritorializam práticas dominantes e reterritorializam em novas formas de se banhar e de aprender com seus conteúdos. Caminhar por suas bordas para margear em seu fluxo e na correnteza de seus conhecimentos (des)fazedores de certezas. Por estas memórias, o presente é o interlocutor do passado e também, o locutor do futuro.
¹ SKLIAR, Carlos. O ensinar enquanto travessia. Salvador: EDUFBA. 2014, p. 116
² BARROS, Manoel. Livro sobre nada. Rio de Janeiro: Record, 1996.
³ KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. São Paulo: Companhia das letras, 2022.
4 SANTA CATARINA. Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico Sustentável. Resolução CERH nº 019, de 2 de abril de 2018. Alterar o cronograma de implementação dos requerimentos de outorga de captação superficial para irrigação na bacia do Rio Araraguá, sub-bacia do Rio Manoel Alves. Disponível em: https://www.aguas.sc.gov.br/jsmallfib_top/mvs/conselho/resolucao/Resolucao_CERH_n_019_altera_prazo_outorga_manoel_alves.pdf. Acesso em: 18 out. 2023.
6 BISPO DOS SANTOS, Antônio. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu/ Piseagrama, 2023.
7 ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
8 IBGE. Cidades e Fatos do Brasil. Histórias & Fotos. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/sc/meleiro/historico. Acesso em: 21 out 2023.
9 KOPENAWA, Davi. ALBERT, Bruce. A queda do céu: Palavras de um xamã Yanomani. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
10 RODRIGUES, S. *Rivais, ‘aqueles que compartilham o uso de um rio’*. 2014. Disponível em: https://veja.abril.com.br/coluna/sobre-palavras/rivais-aqueles-que-compartilham-o-uso-de-um-rio. Acesso em: 21 out. 2023.
11 DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Felix. Kafka, por uma literatura menor. Trad. Cíntia Vieira da Silva. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2017.