A cartografia é tida como ciência e arte que elabora mapas através de referências pessoais. Nesta pesquisa, a cartografia foi a metodologia utilizada para mapear os fluxos e intensidades do rio como propulsora de deslocamentos nos territórios da educação e da arte. Em um conjunto de temas, trago também o margear como movimento atencional do cartógrafo, que através de um corpo-rio, cria suas próprias estratégias para a produção de dados.
Escutar a sonoridade que o rio projeta com o movimento de suas águas correntes; observar cada detalhe da vegetação que compõem suas margens; perceber os ruídos e movimentos sutis dos bichos que habitam seu entorno; registrar estas impressões em uma cartografia e tê-la como método para realizar uma pesquisa sobre o ensino das artes visuais, são os objetivos centrais deste movimento conceitual. As caminhadas nas margens do Rio Manoel Alves, as descobertas de cada mergulho, foram dando subsídios para margear ao longo e ao lado do rio, como também das pessoas que habitam suas margens. Conforme os passos eram dados, as metamorfoses da pesquisa iam alagando outros territórios e adentrando nos espaços da vida, ampliando as possibilidades de leituras e de usos. Assumir este risco é permitir que o acaso possa ter a mesma importância que uma referência bibliográfica, e mais que isso, é levá-lo a sério. Pois o acaso pode indicar caminhos valiosos que desviam do fastio de realizar uma pesquisa estável, com rotas fixas e pré-determinadas.
Logo nos primeiros passos, quando percorrer todo o curso do Rio Manoel Alves ainda era um projeto, irromperam muitas questões sobre o que fazer com o rio, já que ainda não era possível saber o que seria encontrado. Muitas pesquisas começaram de antemão, muitas leituras, conversas e pensamentos sobre o que e como fazer com o material que seria encontrado. Diante desta questão, que aos olhos alheios pode indicar vulnerabilidade ou falta de planejamento, a atenção aos detalhes se redobrou e todo material encontrado passou a ser guardado ou documentado para a posteriori. Quando iniciou o processo de pesquisa do livro Lugar de Passagem: uma história contada por Manoel Alves (2021), foi o princípio das questões sobre o modus operandi que desassossegaram na mesma intensidade em que promoveram deslocamentos.
Mas como encontrar um método capaz de acompanhar uma pesquisa que tem seu objeto em movimento? O que vem primeiro: prática ou teoria? Em qual altura do rio se deve começar as caminhadas? O que deve ser observado? Tais questões se tornaram matéria para fundamentar a pesquisa e servirão de subsídios para acompanhar a escrita deste texto que se fez entre experimentação e teoria. A subjetividade por estar conectada ao movimento e à processualidade, passou a ser um recurso ímpar e a cada meandro, permitiu que fosse possível se perder para depois se reencontrar. No entanto, para valer-se da subjetividade, é preciso encontrar um método que seja capaz de acompanhar o processo. Por ser refratária, a subjetividade necessita de um método que seja capaz de acompanhar o processo em curso. A cartografia, um dos princípios do rizoma formulado por Gilles Deleuze e Félix Guattari (2011), é um método que substitui a abordagem histórica e longitudinal ao objeto da pesquisa, por uma abordagem processual, assignificante, heterogênea e transversal ao tema.
Neste tempo de não saber o que encontrar, tudo precisava ser observado com cautela, pois poderia conter alguma potencialidade a ser explorada. Pedras, sementes, folhas, galhos, sons, cores, texturas, bichos, entre tantos outros detalhes, compunham esta leitura visual da paisagem natural na mesma intensidade que as picadas abertas, as estradas, as pontes, os desvios do curso do rio, as bombas para retirada da água, o leito sem mata ciliar, a água turva pelo barro contaminado de veneno, a falta de saneamento básico, o lixo, o abandono com o rio, entre tantos outros detalhes pertencentes a paisagem social, serviram como recurso para a escrita deste texto. É um olhar pelas lentes de Manoel de Barros (2004), que enxerga a exuberância pelo ínfimo e exalta os contrastes observados na paisagem como também na cultura. Esta lista de leituras da paisagem é resultado das impressões de um corpo no mundo, e por isto se torna ilimitada, pois assim como o corpo muda, o curso do rio também sempre descobre um novo jeito de provocar alguma alteração nesta paisagem.
O corpo em movimento na pesquisa cartográfica, passa a ser o principal protagonista na execução e resolução dos problemas. Dentro deste movimento existe subcamadas composta pela relação com a caminhada, o ambiente, a rejeição à técnica, a temporalidade e as variações da atenção, em que a prática do cartógrafo estará voltada para a produção de dados. Por este fato, a escrita em uma pesquisa cartográfica, assume suas características ensaística, rizomáticas, e cria a partir da reflexão dos movimentos conceituais e fluviais, uma multiplicidade de temas sobre como o corpo-rio desenvolve práticas e estratégias para margear o rio em sua referência primária: um corpo em movimento que está atento aos estímulos do ambiente e que responde as experiências de vida.
"As caminhadas nas margens do Rio Manoel Alves, as descobertas de cada mergulho, foram dando subsídios para margear ao longo e ao lado do rio, como também das pessoas que habitam suas margens."
O simples ato de colocar os pés em movimento e buscar relações entre rio, contexto e pessoas, fez com que pensamentos que já existiam anteriormente, imergissem na superfície para concatenar nesta pesquisa. O autor Adriano Labbucci (2013, p. 10) traz na introdução de seu livro: Caminhar, uma revolução, o pensamento do escritor e dramaturgo Hugo von Hofmannsthal (1984 – 1929) de que estas descobertas entre corpo e mundo acontecem quando trazemos as inquietações que já existem dentro de nós, mas precisamos deste encontro com mundo para descobrir que elas existem.
Quando a pesquisa ainda estava na fase de buscar por estes indicativos, em meio a conversas, lembranças e explicações, foi possível perceber que as memórias de brincadeiras, banhos, pesca e outras atividade construída junto ao Rio Manoel Alves, pertencem a uma geração de pessoas que já se encontram na fase adulta. A ideia de rio para jovens e crianças em sua maioria, é a representação imagética idealizada e distante de rios que estão presentes nas mídias e nos materiais didáticos, ou então de rio como recurso hídrico para consumo humano e para irrigação na agricultura. O rio que cruza as cidades e que passa por baixo da ponte a qual se atravessa todos os dias, é alheio as questões políticas, sociais e ambientais ao qual fazem parte. Neste sentido, os modos de produção e de consumo da sociedade contemporânea que criaram um abismo entre ser humano e o local em que vivem, esvaziando de sentido ou preenchendo com justificativas supérfluas a própria existência, foi o que principiou este movimento que buscou na educação, um meio de realizar práticas artísticas voltadas para uma formação ética-estética da população.
A experiência de vivenciar o rio, amplia os modos de ver e de interagir conforme as mudanças contidas ao longo do seu curso vão aparecendo. Essa relação que o ato de caminhar proporciona com o espaço, foi enunciada por David Le Breton (2017, p. 174) com a afirmação de que “[...]a relação do homem que caminha com a sua cidade, com as suas ruas, com seus bairros sejam eles conhecidos ou descobertos à medida que seus passos os percorrem, é primeiramente uma relação afetiva e uma experiência corporal”. Essa experiência que acontece do encontro do corpo com o mundo, possibilita uma aproximação sensível com o lugar e faz com que os detalhes possam ser vistos com lentes macro, descobrindo um outro rio que esteja desassociado da ideia de funcionalidade.
Como um afrontamento, este margear é construído em tempos em que a técnica orienta todos os processos do cotidiano. Parece existir um pensamento dominante de que todos os trabalhos que envolvam a processualidade, devem ser substituídos ou diminuídos com o uso da tecnologia. Tal fato se fez presente em todas as fases de desenvolvimento do livro - até mesmo quando já estavam sendo entregues nas escolas - quando a questão sobre o porquê da escolha em fazer o percurso do rio caminhando ao invés de utilizar drones para captar imagens aéreas. Como se fosse uma perda de tempo, pois o trabalho de dias e mais dias indo até o rio para fotografar, poderia ser otimizado em uma tarde com o uso do equipamento. Nesta mesma correnteza, Labbucci (2013) comenta sobre como a técnica e as máquinas têm substituído este que seria o gesto mais humano: o caminhar. Em suas pesquisas, ao analisar a história do caminhar, o autor traz as perspectivas sobre o tema por outros dois autores que interessa destacar: Hermann Hesse e Henry David Thoreau.
Para Hesse, o caminho não é fuga para lugares exóticos, mas para dentro da própria subjetividade, a fim de encontrar razão e força para resistir a esses tempos de técnica e de dinheiro; para Thoreau, o caminho é possível, contanto que rompamos com as pressões deste mundo e criemos o vazio a nossa volta, o qual então se transformaria numa plenitude dentro de nós, o “espírito de aventura”, sem o qual não nos colocamos a caminho. (Labbucci, 2013, p. 17).
A rejeição a técnica fica evidente quando ela está associada à massificação do sujeito, pois esta substituição dificulta que qualquer processo de subjetivação aconteça. Tal posicionamento não invalida o uso de recursos tecnológicos, apenas questiona sobre como o uso demasiado interfere nos modos de ser e estar no mundo. A escolha pelo margear o rio a pé, foi para favorecer o acontecimento destes processos de subjetivação e que pudessem corresponder ao ato de cartografar.
No entanto, esta liberdade que o ato de caminhar sugere, não elimina a necessidade de um planejamento, ainda que pequeno, com horários devido aos deslocamentos e lugares visitados. Considerando a incidência de luz solar, os bichos que residem nas margens, o risco de atolar o carro, de estar sem sinal de telefone, somados a condição de estar sozinha, foram fatores que fizeram com que o melhor horário para estar na beira do rio, era quando o sol já estivesse alcançado o céu, entre 8h e 17h. Não como uma regra, mas sim por cautela, margear nesta janela de tempo cronológico e linear, também permitiu o cruzamento de tempos entre passado e futuro com durações e intensidades diferentes.
O margear consegue abarcar diferentes noções de tempo e temporalidade quando as oportunidades de descobertas e de registros durante as caminhadas na margem do rio, dependiam da sistematização do tempo Cronos, o presente, pois passado e futuro são relativos a ele. Pelas lentes da filosofia deleuziana, sem adentrar às origens da mitologia grega, Cronos é o tempo que tem apenas o presente como referência, pois “passado, presente e futuro não são três dimensões do tempo; só o presente preenche o tempo, o passado e o futuro são duas dimensões relativas ao presente no tempo” (Deleuze, 1974, p. 167). Em contrapartida, o tempo Aion permite que passado e futuro sejam ilimitados no presente. Ao invés de um presente que aprisiona o passado e o futuro, a temporalidade do Aion contém na mesma superfície, um futuro e um passado que dividem a cada instante o presente. O tempo Cronos possui variações de um bom e um mau, ligado a ação dos corpos e das causas, enquanto o tempo Aion ocupa o lugar do acontecimento e na criação do sentido, na forma de traçar uma fronteira entre as coisas e as proposições, pois segundo o autor, é assim que a linguagem é tornada possível. Na superfície estendida entre passado, presente e futuro de Aion, o rio está além de suas qualidades físicas e passa a ser local de acontecimentos que fundamentam a linguagem e resultam nesta escrita.
Este modo de fazer pesquisa que aproxima teoria e prática, conferindo a mesma importância para as duas coisas, é uma forma de abordar o objeto de estudo como também de transformá-lo. Francesco Careri que traz no seu livro Walkscapes (2013) o caminhar enquanto uma forma de arte, comenta que somente ao explorar a cidade a pé, será possível penetrar nos seus significados. Com isso, Careri (2013, p. 32) referencia o caminhar “como um instrumento estético capaz de descrever e modificar os espaços que muitas vezes apresentam uma natureza que ainda deve ser compreendida e preenchida de significados, antes que projetada e preenchida de coisas”. Como a pluralidade contida nas margens do rio, desde a nascente até o deságue no Rio Mãe Luzia, onde o margear possibilitou que as potencialidades menores deste lugar, que está em constante modificação, fossem percebidas. Um começo com pedras de tamanhos variados, vegetações abundantes, margens planas com água limpa, rasa, ágil e translúcida, que evolui para um rio com mata ciliar tímida e quase ausente, com margens íngremes e próximas as granjas de arroz, de leito largo e com água turva, barrenta e envenenada.
A construção deste conhecimento que se deu a partir das caminhadas nas margens do Rio Manoel Alves, também pode ser identificado como produção de dados que acontece na fase inicial de uma pesquisa. Esta produção de dados é para Virgínia Kastrup (2015), decorrente da atenção do cartógrafo e se faz através da detecção e a apreensão de material de maneira desconexa e fragmentada. Esta atenção também pode ser um processo complexo por assumir diferentes funcionamentos, com variedades atencionais que coexistem e que adquirem organizações e proporções distintas, como: seletiva ou flutuante, focada ou desfocada, concentrada ou dispersa, voluntária ou involuntária, e várias combinações entre estas categorias. A autora chama esta variedade da atenção de política cognitiva, podendo ainda ser dividida em realista ou construtivista:
[...] um tipo de atitude ou de relação encarnada, no sentido de que não é consciente, que se estabelece com o conhecimento, com o mundo e consigo mesmo. Tomar o mundo como fornecendo informações prontas para serem apreendidas é uma política cognitiva realista; tomá-lo como uma invenção, como engendrado conjuntamente com o agente do conhecimento, é um outro tipo de política, que denominamos construtivista. Nesse sentido, realismo e construtivismo não são apenas posições epistemológicas abstratas, mas constituem atitudes investigativas diversas [...]. (Kastrup, 2015, p. 33-34).
Esta atenção é, de certa forma, ao mesmo tempo aleatória e seletiva porque necessita da investigação e do interesse para que a produção de dados seja eficaz. A autora ainda aborda sobre a flutuação da consciência que o cartógrafo pode apresentar durante esta fase de seleção e coloca que a questão do cartógrafo aprendiz é saber onde pousar sua atenção. Em análises fenomenológicas e psicanalíticas sobre o tema, a autora discorre sobre a perspectiva dessas variedades atencionais a partir da subjetividade para estas áreas que trouxeram o tema como algo uniforme e igual para todos. Embora o uso desta atenção flutuante tenha sido introduzido por Sigmund Freud (1856–1939), pela perspectiva da análise clínica - descrevendo a conduta do analista que mantinha sua atenção direcionada durante as sessões ao mesmo tempo que permitia que outros pensamentos e sentimentos pudessem vir à tona - a autora faz esta aproximação para a atenção que o cartógrafo precisa ter ao operar nesta seleção de fragmentos distintos e muitas vezes desconexos. Ainda assim, não deve haver a predominância da intencionalidade, pois esta é a base do entendimento da cognição entre a relação sujeito-objeto, mas que haja mutações e variações desta atenção, inclusive na própria intencionalidade que principiou todo o movimento. Por este motivo que Kastrup alerta para os cuidados que se deve ter ao enfatizar a atenção flutuantes, pois ela pode produzir sucessivos deslocamentos do foco atencional do cartógrafo, sendo necessário redobrar os cuidados com esta seleção de acometimentos. O foco atencional deve tatear e produzir uma certa desaceleração na atenção flutuantes, uma pausa no tempo Cronos para que seja possível explorar aquilo que lhe afeta, ainda assim, sem criar uma relação imediata ou produzir algum tipo de compreensão.
Este modo de explorar o lugar, que mobiliza memória e imaginação, passado e futuro, são os aspectos que caracterizam como a atenção do cartógrafo funciona durante a fase de produção de dados numa pesquisa de campo. Para esta variedade atencional, Kastrup (2015) define quais seriam as quatro atitudes fundamentais para produção de dados, sendo elas: rastreio, toque, pouso e reconhecimento atento. Suscintamente, rastreio é um gesto de varredura do campo, que tem seu objeto como algo móvel; o tato, por ser uma modalidade sensorial, mobiliza atenção e requer uma memória de trabalho que culmine na exploração do objeto; o pouso seria a percepção do gesto, podendo ele ser visual, auditivo ou outra coisa que provoque uma pausa, ampliando os sentidos e reconfigurando o campo de observação; o reconhecimento atento é a quarta variedade atencional e configura a ação do cartógrafo quando este é atraído por algo que obriga atenção. Não se trata de um reconhecimento automático, “[...] pois o objetivo é justamente cartografar um território que, em princípio, não se habitava” (Kastrup, 2015, p. 45). Para isso, a atenção do cartógrafo está voltada para a criação de seu território a partir da sua observação, e com isso poderá produz conhecimento ao longo do percurso de sua pesquisa.
Da mesma forma que, ao rastrear um objeto móvel e mutável como o rio, não é possível obter respostas absolutas com resultados permanentes, pois cada cartógrafo fará investidas em seu tempo, contexto e experiências. A atenção ao tato inaugura uma possibilidade de leitura e conversa com o rio que está além do visual e do racional, aguçando e mobilizando a memória através da água gelada, dos passos dados entre banhados, asfaltos, pedras lisas, entre tantas outras texturas, sonoridades e sensações. Para que estas variações pudessem ser qualificadas, a atenção precisou pousar sobre elas e conceder espaço na pesquisa. Assim, ao reconhecer o rio como objeto de pesquisa, é também um reconhecimento à impermanência e continuidade do conhecimento, pois o rio poderá ser revisitado inúmeras vezes, sempre a partir de uma nova perspectiva. A produção do conhecimento passa a ser um trabalho de invenção dentro do método cartográfico, um lugar de criação fundamentada, que não pode ser confundida com o sentido de imaginação, pois é uma produção de territórios existentes, que se modificam e se atualizam segundo o processo de criação e de diferenciação.
O rio já estava ali, sempre esteve ali, apenas precisa ser (re)produzido e (re)visitado pela atenção flutuante que observa as necessidades pronunciadas durante o ato de margear. É nesta indeterminação, nesta dinamicidade que o margear necessita de habilidades para abordar metas que se modificam continuamente, se colocando ao mesmo tempo como travessia e como direcionamento, uma experimentação sensível e ao mesmo tempo crítica deste encontro que se faz corpo-rio.
Assim, ao reconhecer o rio como objeto de pesquisa, é também um reconhecimento à impermanência e continuidade do conhecimento, pois o rio poderá ser revisitado inúmeras vezes, sempre a partir de uma nova perspectiva.
Até o momento, o margear está ligado ao movimento do corpo e aos tipos de atenção que uma pesquisa cartográfica requer: uma atenção descentrada, aberta e que não busque pela representação da realidade. Porém, ao abordar a temática do rio, que faz parte de algo que é comum a todos, cria-se um duplo movimento: o que acessa este lugar comum e que ao mesmo tempo constrói um rio heterogêneo. Este duplo movimento ao comum que a cartografia proporciona, é composto por um conjunto de singularidades que se modificam continuamente. Primeiramente porque esta metodologia processual que investiga, correlaciona, cria, experimenta, entre tantas outras maneiras de adentrar em uma pesquisa rizomática, não quer percorrer um caminho já percorrido para conhecer o que já está conhecido. A prática do cartógrafo, segundo Suely Rolnik (2016, p. 66), está atenta aos desejos que constroem territórios existenciais, que permitem que seu corpo vibre em diferentes frequências e que “[...] fica inventando posições a partir das quais essas vibrações constroem sons, canais de passagem, carona para a existencialização”.
Os autores Virgínia Kastrup e Eduardo Passos (2013) contribuem com este pensamento de que o ato de conhecer, dentro desta perspectiva metodológica, possui capacidades para criar realidade, e por isso reproduz realidades existentes. Para os autores (Kastrup; Passos, 2013, p. 264):
Há uma dimensão da realidade em que ela se apresenta como processo de criação, como poiesis, o que faz com que, em um mesmo movimento, conhecê-la seja participar de seu processo de construção. O acesso à dimensão processual dos fenômenos que investigamos indica, ao mesmo tempo, o acesso a um plano comum entre sujeito e objeto, entre nós e eles, assim como entre nós mesmos e eles mesmos. O acessar esse plano comum é o movimento que sustenta a construção de um mundo comum e heterogêneo.
Ao falar sobre um plano comum, os autores se referenciam aos estudos feitos por Peter Pál Pelbart (2003) como sendo um lugar ocupado na mesma proporção pelo que é social e pelo que é individual, por isso uma composição de heterogeneidades. Ambas as situações, social e individual, se apropriam dos elementos que compõem a vida e que, de certa forma, são mobilizadas e colonizadas pelo capital. Ciente de que este é um recorte sobre o plano do comum - não contemplando as vastas discussões já realizadas por diversos filósofos sobre o tema, pois entraríamos em questões pouco pertinentes à pesquisa – para este caso, “ele funciona como foco de resistência em relação à captura pelas diferentes lógicas homogeneizantes e totalizante” (Kastrup; Barros, 2013, p. 264). Sendo assim, os autores tratam a pesquisa cartográfica como uma abordagem a este plano comum e heterogêneo, contribuindo com a construção de um mundo comum.
Para que esta construção possa ser possível, é necessário a produção de práticas participativas transversais que coloquem o que é comum e heterogêneo num limite instável “[...] entre o que conecta os diferentes sujeitos e objetos implicados no processo de pesquisa e o que, nessa conexão, tensiona; entre o que regula o conhecimento e o que mergulha na experiência” (Kastrup, Barros, 2013, p. 267). Quando aproximado das questões que perpassam o rio, este lugar comum pode ser abordado por práticas artísticas e ecosóficas que causem efeitos de pertencimento ao rio. O desafio está na realização de práticas que sejam permanentes e variáveis neste enfrentamento às crises socioambientais que surgem a todo tempo, necessitando que o rio seja frequentemente conquistado por este lugar comum.
Quando o margear é colocado como movimento ecosófico, orientado por práticas artísticas ético-estética, intenta ocupar o rio pela experimentação entre o que é comum e o que é subjetivo, conferindo espaço para que novas formas de subjetividades políticas sejam produzidas. Este pensamento de que a arte pode e deve valer-se de práticas estéticas orientadas pela política e situadas num contexto, vai ao encontro do que Jacques Rancière (2009) desenvolve como partilha do sensível. Ao aproximar estas áreas, o autor não objetivava criar uma utopia política, mas sim, pensar sobre como a estética e a política podem travar discussões transdisciplinares que restabeleçam as condições de inteligibilidade de uma comunidade. Cabe apontar que o termo estética não está relacionado a uma teoria da arte que lida apenas sobre sensibilidade, mas sim aos três procedimentos de identificação e pensamento das artes, sendo eles: “[...] um modo de articulação entre maneiras de fazer, formas de visibilidade dessas maneiras de fazer e modos de pensabilidade de suas relações [...]” (Rancière, 2009, p. 13). Implicando ao que o autor vai chamar de: “afetividade do pensamento”. É pela articulação destas três áreas que compõem o regime estético e seus modos de transformações, que esta teoria deseja competir com os recorrentes discursos de fim e de retorno que ocupam todo objeto do pensamento.
Para acessar o que é comum e o que é heterogêneo, a partilha do sensível é demarcada pela maneira como se ocupa o tempo e o espaço do que é comum. Como “numa partilha de espaços, tempos e tipos de atividade que determina propriamente a maneira como um comum se presta à participação e como uns e outros tomam parte nessa partilha” (Rancière, 2009, p. 15). Essa partilha que acontece no espaço social, se dá pelo entrecruzamento dos saberes pertencentes aos sujeitos. No entanto, é preciso considerar que o desprezo da sociedade pelos princípios da ética, cria um obstáculo para que uma transformação no comum se efetive. Rancière analisa pelos escritos de Platão, sobre como o acesso dos indivíduos aos bens culturais desde a Grécia antiga, são restritos pela sua ocupação e disponibilidade de tempo. Como exemplo do artesão que pela falta de tempo, não pode se ausentar de sua atividade para participar das coisas comuns, uma vez que este faz parte de um grupo que mantém funcionando a engrenagem social da polis com sua mão de obra.
Aproximando aos dias atuais, esta realidade se conserva quando, por exemplo, na reforma do Novo Ensino Médio para a educação básica (Brasil, 2017) e todo contexto político da época1, contém indícios de que este projeto educacional está alinhado aos princípios de uma política neoliberal (Garcia, 2022). Esta relação foi feita para sinalizar que as instâncias geridas pelo estado, independente da época, querem controlar quem tem direito a emancipação intelectual e cultural. “A partilha do sensível faz ver quem pode tomar parte no comum em função daquilo que faz, do tempo e do espaço em que esta atividade exerce” (Rancière, 2009, p.16). O acesso ao sensível da arte, o tempo para reflexão sobre política, sobre as questões que perpassam a existência humana, compondo a noção de estética escrita pelo autor, revela quem pode se tornar visível. A partir desta noção de estética é que se pode pensar em como as “práticas estéticas” podem dar visibilidade as práticas de arte, composta pelos modos de fazer que ocupam o comum. “As práticas artísticas são “maneiras de fazer” que intervêm na distribuição geral das maneiras de fazer e nas suas relações com maneiras de ser e formas de visibilidade” (Rancière, 2009, p. 17).
Dessa forma, à esta reflexão sobre a abrangência da estética, cabe destacar sua importância na emancipação do sujeito perante os poderes vigentes da política, as forças maiores presente no cotidiano. A estética passa a ser uma ferramenta da educação para acessar pelo mundo sensível, os problemas do cotidiano. “É esse modo específico de habitação do mundo sensível que deve ser desenvolvido pela “educação estética” para formar homens capazes de viver numa comunidade política livre” (Rancière, 2009, p. 39). Neste desenvolvimento sobre o termo e uso da estética tanto pela arte quanto pela política, o autor coloca que a arte, pelos seus modos de saber-fazer, pode construir pela troca dos saberes, experiências que contribuem para o desenvolvimento do espaço social.
A breve elucidação sobre o funcionamento da estética na partilha do sensível, foi para aproximar o pensamento de como o margear pode ser esta ferramenta de construção do rio como lugar comum. O ato de se colocar em movimento pelas margens, pode despertar questionamentos sobre as atividades desenvolvidas, sobre quem e como este lugar é ocupado e assim produzir conhecimento. Antes de querer fundamentar e justificar um pensamento pela afirmação de outro, esta aproximação é feita pelas relações entre o poder e o saber que compõem a margem do rio e que possibilitam que o margear possa ser esta prática artística que alcance pela subjetivação e reflexão, o rio como lugar comum. A prática artística do margear compreende saberes que são anteriores ao próprio meio, pois, pela partilha de saberes, pode alcançar o campo do sensível que está além da produção e contemplação da obra de arte em si.
Produzir une ao ato de fabricar e o de tornar visível, define uma nova relação entre o fazer e o ver. A arte antecipa o trabalho porque ela realiza o princípio dele: a transformação da matéria sensível em apresentação a si da comunidade. (Rancière, 2009, p. 67).
Neste sentido, é o ato de produzir que acontece pelo convívio de quem se propõe ao trabalho, que resulta na partilha do sensível. A prática do margear também carrega consigo, evidências de produção de conhecimento sensível quando este movimento pode ser compartilhado. Para Rancière (2009, p. 67), é através destas práticas o fazer artístico se liga à produção e emancipação do sujeito: “[...] a arte como transformação do pensamento em experiência sensível da comunidade”. Portanto, são as maneiras de fazer da arte, as formas de dar visibilidade, seus modos de pensabilidade e sua partilha, que pode despertar uma conscientização dos indivíduos. No mesmo ato, o margear enquanto uma prática artística, quer acessar o plano comum pela partilha da realidade.
Entretanto, Kastrup e Barros (2013) apontam para o perigo de se realizar uma pesquisa cartográfica que quer acessar o plano comum, acabar derrapando para outra direção. No contexto de uma pesquisa que pretende, sobretudo, investigar a produção da diferença, ainda que no campo comum, pode se deparar com os problemas de uma sociedade hegemônica, fundada em parâmetros de semelhança e identidade.
Nesta ocasião, aproximo dos riscos de desenvolver práticas artísticas que abordem o margear com indivíduos que se beneficiam economicamente das águas do rio. Seria possível tal proposta? E como desenvolver uma prática artística que questione os problemas sociais do rio pela sensibilização, sem que ocorra uma inversão dos sentidos? O perigo está em confundir o comum como espaço demarcado, privado, ou como um território particular. A cartografia se debruça na construção coletiva do conhecimento quando acessa ao mesmo tempo, o lugar comum do pesquisador e do pesquisado. Para os autores (Kastrup, Barros, 2013, p. 269):
O comum tem como sua figura oposta o próprio ou particular que sempre ameaça absorvê-lo quando nos fechamos em um espaço comunitário que desenvolve práticas para identificar quem está dentro e quem está no seu exterior. Apostar nos pontos de vista próprios ou particulares é confundir o comum com o homogêneo. Nesse caso, o espaço de partilha da comunidade mais reparte do que faz participar, já que sua atividade inclusiva tem como contraparte a exclusão do não semelhante.
Nesta observação, qualquer pensamento que se difere do comum pode ser excluído ou capturado, pois o grupo tende a dividir ao invés de incluir a diferença em seu discurso. Como forma de contrapor a esta situação, os autores recorrem à transversalidade de Guattari (1981) como um procedimento que visa superar os impasses da comunicação em níveis horizontais e verticais para acessar as diferenças. Desta forma, para ter uma abertura comunicacional nos grupos, e aqui aproximo dos grupos de indivíduos que habitam as margens do Rio Manoel Alves, o problema do comum está em enfrentar as modulações das atividades econômica que atingem o uso da água. O ponto de vista de um agricultor com grande produção, que tem suas terras localizadas próximas ao rio e numa altura de seu curso onde dificilmente falta água, é diferente daquele agricultor que possui uma propriedade menor e que tem suas terras no final do curso do rio onde o fluxo de água já é escasso. Como problematizar os modos de uso da água dos rios, uma vez que a justificativa econômica está encarnada nos discursos? Esse questionamento visa problematizar o que está naturalizado, o que foi capturado pelo comum e que continua sendo reproduzido pelas novas gerações, como a vez que ouvi de um adolescente a afirmação de que, pode sim, desviar o curso do rio para beneficiar uma propriedade. A transversalidade no grupo enfrenta estas estruturas hierarquizadas da sociedade e as mensagens que defendem ideais hegemônicos, a fim de encontrar o lugar do sujeito.
É nesse sentido que a cartografia traça e acessa o plano comum e coletivo abrindo e ampliando as relações intra e intergrupais. Esse procedimento produz coletivos não identitários por meio dos quais podemos criar condições para o acesso do sujeito ao seu plano de subjetivação. (Kastrup; Barros. 2013, p. 270).
Os autores ainda destacam que no coletivo não existe propriedade privada, algo que pertença apenas a este grupo ou a um indivíduo, sendo que as produções das forças que compõem a realidade, estão disponíveis para serem experimentadas. O papel do cartógrafo é revelar tais situações e levar o conjunto do grupo a não mais fugir das verdades que são encobertas (Guattari, 1981). No processo de uma invenção interpretativa do mundo, o cartógrafo convoca uma carga cultural que é subjetiva e que, ao convergir em seu inconsciente estético, compartilha saberes no campo da experimentação do sensível.
O trabalho de análise/intervenção de uma pesquisa cartográfica, implica uma série de discussões, perigos e descobertas, como as que foram apresentadas até aqui, mas que não se limita na construção da pesquisa ou na experiência do cartógrafo. Teoria, prática e intervenção, fazem parte da produção de conhecimento e de novas realidades. Território existencial dos desejos que compõe a existência humana, onde o ato de conhecer não é apenas representar um objeto ou processar informações que já foram constituídas por outras pesquisas. E sim, o conhecer implica um modo de se relacionar com o mundo, a fim de desenvolver propostas que estejam comprometidas com a própria existência. O trabalho da cartografia é feito pelo compartilhamento de um território existencial, em que sujeito e objeto ao se relacionarem, se codeterminam.
Tal prática requer que as formações do desejo enquanto fenômeno da existência humana, que dependem do contato com o outro, humano ou não humano, sejam capazes de mobilizar afetos. A força de criação do cartógrafo depende do seu processo de subjetivação e para entender como estas duas partes se correlacionam também com uma força de resistência, Suely Rolnik (2004), separa a apreensão do mundo enquanto matéria em dois modos: forma e força.
Conhecer o mundo como forma convoca a percepção, operada pela sensibilidade em seu exercício empírico; já conhecer o mundo como força convoca a sensação, operada pela sensibilidade em seu exercício intensivo e engendrada no encontro entre o corpo, como campo de forças, decorrentes das ondas nervosas que o percorrem, e as forças do mundo que o afetam. (Rolnik, 2004, p. 232).
Pelo exercício intensivo do sensível, que articula forma e força, a autora designa o “corpo vibrátil” como uma metáfora para a vitalidade, sensibilidade e resposta do corpo diante de contextos políticos e sociais complexos. Para a autora, o corpo sensível é composto pela percepção com o outro, podendo ser traduzido em representações visuais, auditivas, entre outras, e pela sensação com o outro, sendo a expressão e criação, mas nunca representação. Nesta relação paradoxal, rio enquanto forma se limita a primeira imagem genérica de rio que nos vem à mente quando pensamos, rio enquanto força é esta intensidade que provoca, questiona e que deseja por meio da criação, comunicar algo. O tensionamento entre a percepção e a sensação do rio é o que mobiliza a potência do pensamento e da criação do cartógrafo.
Ao se tocarem, corpo e rio convidam e criam pelas sensações deste encontro, um lugar para mergulhar no corpo e tatear a água. O exercício do sensível é que aciona pela percepção e sensação, uma apreensão possível que se dá pelo corpo-vibrátil, ou seja, um “corpo sensível aos efeitos dos encontros dos corpos e suas reações” (Rolnik, 2016, p. 31). Por este motivo que o rio que corre por esta cartografia, conduz um pensamento e criação deste corpo-vibrátil, que interfere na realidade a partir das próprias percepções e sensações. O ato de margear proporciona leituras e conversas entre corpo e rio, ao compor e recompor práticas estéticas neste lugar comum e ao mesmo tempo singular.
1 Para entender melhor o período político, assistir documentário Democracia em Vertigem, 2019, com direção de Petra Costa.
"O desafio está na realização de práticas que sejam permanentes e variáveis neste enfrentamento às crises socioambientais que surgem a todo tempo, necessitando que o rio seja frequentemente conquistado por este lugar comum."
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