Dos encontros entre seres humanos e rio, quais os movimentos que escapam à subjetividade serializada? Na busca por estes movimentos intensivos capazes inundar os modelos e modos preestabelecidos, que reproduzem desejos orientados pelo capitalismo, o conceito de ecosofia servirá para conduzir essa escrita que elucida junto ao documentário Atravessamentos: memórias sobre o Rio Manoel Alves1, a construção de outros modos de existências provocados por práticas artísticas. Ao apontar que uma produção artística estará entrelaçada ao desenvolvimento teórico, não representa que será feita uma análise do produto ou do resultado. Aqui, interessa saber sobre o processo de construção deste documentário e seus desencadeamentos envolvendo questões sobre educação, meio ambiente, sociedade e subjetividade.
O impulso que motivou a estruturação do documentário, foi o desejo de alcançar os lugares íntimos onde as memórias são guardadas para então conhecer como é o rio que corre dentro de cada pessoa. Para tentar alcançar este lugar, foram traçadas algumas linhas que pudessem conduzir e instigar esta conversa que aconteceu nas margens do Rio Manoel Alves. As seis pessoas que participaram da conversa tinham alguma relação com o rio, seja por trabalho, pesquisas, memórias, educação ou como inspiração. Esta etapa de seleção dos participantes comprovou que o banho ou outras atividades de lazer com o rio, diminuiu consideravelmente entre a população, principalmente entre os mais jovens que moram nas regiões centrais dos municípios de Morro Grande e Meleiro/SC. Foi possível identificar em conversas com alunos nas escolas destes municípios que, dentre os fatos que contribuíram para este distanciamento, está o uso das tecnologias e mídias sociais, somado a poluição da água causada principalmente pelo uso de agrotóxicos nas lavouras de arroz. Estes fatos são as principais razões para a crescente indiferença com o contexto, pois a tecnologia tem aproximado o que está distante e afastado o que está próximo.
A abordagem durante a entrevista se deu através de perguntas que pudessem provocar uma reflexão e conduzir a conversa para temas pré-estabelecidos como também iniciar outros assuntos, pois as perguntas eram abertas e suscetíveis a interpretações pessoais. Estas questões perpassavam por temas como território, colonização, meio ambiente, economia, e seguiam a lógica da temporalidade do curso da água e do curso da vida entre passado, presente e futuro. Para marcar estas três temporalidades, foram desenvolvidas após a conversa, algumas práticas que pudessem se desdobrar em outros trabalhos, outras leituras sobre o mesmo tema. Ao passado, coube as conversas e registros das histórias vividas e partilhadas. No presente, a proposta foi que cada pessoa entrevistada escolhesse uma pedra em sua volta para então escrever sobre sua superfície, uma palavra que representasse aquele encontro, aquele momento. As pedras foram levadas para casa, para que as palavras escritas a lápis, pudessem ser cravadas com o uso de uma micro retífica. Esta etapa de marcar a pedra com o uso de um equipamento, foi registrado nos vídeos Palavras Marcadas2 com o processo deste movimento insistente de afundar a palavra na pedra. Com as pedras prontas, foi preciso retornar ao rio com elas para então interpretar cada palavra e através da fotografia, obter imagens que pudessem ilustrar cartões postais3. Estes cartões foram distribuídos entre moradores de Morro Grande e Meleiro, e entre estudantes das escolas destes municípios. Para findar as propostas artísticas, agora abrangendo o futuro, foi realizado após a conversa, um momento de elaboração de barquinhos de papel utilizando a técnica do origami, para que pudesse conter a concepção de rio de cada um. Estas concepções foram escritas no barquinho, lidas e interpretadas4 por cada pessoa e logo após colocadas sobre a superfície do rio, para serem carregadas pela água, como um gesto para alcançar o futuro.
Dentre os assuntos abordados no desenvolver das conversas, destacam-se aqueles que pelo saudosismo de uma época de poucos recursos e muita invenção, evidenciaram as transformações do uso e manejo com o rio. Tais transformações estão diretamente relacionadas ao sistema de subjetivação capitalista que pela separação rígida entre o mental, o social e o ambiental, tem o rio e todos os elementos naturais, como um conjunto de recursos capazes de serem apropriado pelo homem. Esta lógica produtivista do capitalismo que opera na exploração da força de trabalho para sustentar a economia, está intrínseca e indissociavelmente ligada a produção da cultura e da subjetividade humana. É diante deste quadro que a filósofa Suely Rolnik desenvolve seu pensamento sobre como subverter a política que coloniza tanto a economia como a produção de desejos pois, segundo a autora (2018, p. 32):
[...] é da própria vida que o capital se apropria; mais precisamente, de sua potência de criação e transformação na emergência mesma de seu impulso – ou seja, sua essência germinativa -, bem como na cooperação da qual tal potência depende para que se efetue em sua singularidade.
Em suas críticas ao regime macropolítico colonial-capitalístico que principiou junto de Félix Guattari, a psicanalista alerta sobre o extrativismo que este sistema produz ao se apropriar dos recursos naturais até as últimas consequências e de como este sistema também produz danos ao inconsciente e a subjetividade. Para isso, não basta agir na esfera macropolítica, tem que pensar em como dissociar a relação entre o capital e a potência de criação. Para contrapor a macropolítica dos sistemas de poder institucionais e estruturais da sociedade, a autora investe em uma micropolítica que atue nas interações sociais em escalas individuais e cotidianas. Com isso, constrói-se “o comum”, ou “campo imanente da pulsão vital de um corpo social quando a toma em suas mãos, de modo a direcioná-la à criação de modos de existência para aquilo que pede passagem” (Rolnik, 2018, p. 33). Na listagem das sete esferas que diferenciam as insurreições nas escalas macro e micropolíticas, sendo elas: foco, agentes em potencial, o que move os seus agentes, intenção, critérios de avaliação das situações, modos de operação e modos de cooperação, vale destacar a segunda esfera em que os Agentes em potencial são divididos em duas categorias: humanos e não humanos. Para uma insurreição macropolítica nesta esfera, os agentes em potencial são apenas os humanos. No entanto, para que aconteça uma insurreição em escala micropolítica, os agentes em potenciam são os humanos bem como todos os elementos que compõem a camada da biosfera e que se manifestam aos seus modos quando acontece algum tipo de violência contra a vida.
Por exemplo, um rio que seca pelo excesso de lixo colonial-cafetinístico e que, diante disso, se insurge deslocando-se para o subterrâneo, onde encontra a possibilidade de voltar a fluir, agora protegido de tais efeitos venenosos; ou ainda árvores que florescem antes da primavera, rebelando-se contra o risco de esterilidade que pode decorrer do acúmulo de poluição. (Rolnik, 2018, p. 124-125).
Rios, como agentes não humanos que têm reagido de forma recorrente as ameaças a sua vitalidade, derrubando pontes, impedindo passagem, engolindo cidades, afogando estratégias políticas e econômicas de um regime que é incapaz de controlar estas forças, para então retomar seu espaço de curso. Em cada tragédia, o rio assusta pela forma violenta e avassaladora que irrompe seus limites, onde o que deveria assustar é a forma violenta em que suas margens são ocupadas. Todo desenvolvimento das sociedades aconteceu perto da água, e ainda que tenhamos aprendido quase nada com a fala dos rios, é preciso, segundo Krenak (2022, p. 37), “mergulhar profundamente na terra para recriar mundos possíveis”. Uma relação de cuidado, respeito e reciprocidade, sem que haja fronteira entre humano e não humano.
É neste sentido que Suely Rolnik (2018) orienta que ao trabalhar com a subjetividade, deve-se operar pelas vias da forma e das forças para qualificar a capacidade pessoal-sensorial-sentimental-cognitiva. As formas podem ser captadas pela percepção e pelo sentimento: uma apreensão do mundo que geralmente já vem associada aos códigos e representações construídos socialmente. As forças decorrem dos encontros entre o corpo e o mundo, produzindo novas relações de distintos efeitos, outras maneiras de ver e de sentir a mesma coisa.
Com efeito, a exibição do vídeo nas escolas, despertava o interesse dos alunos em compartilhar lembranças pessoais, histórias ouvidas por familiares ou simplesmente o reconhecimento de algum lugar: Prof., eu conheço esta ponte. Moro ali perto! Neste sentido, a atenção para as memórias e desejos revelados pelas falas dos entrevistados, possibilitou que outros modos de habitar e conhecer o rio pudessem acontecer dentro da sala de aula. Sem que a lógica do pensamento moderno-capitalista-extrativista fosse acionada, como nos falou Rolnik, mas que pudesse fazer emergir diferentes interações entre o rio e as subjetividades dos alunos.
Esta produtividade que desarticula o todo e objetiva “descolonizar o pensamento”, foi desenvolvida por Félix Guattari com o conceito da ecosofia que trabalha com os modos de habitar e conhecer este mundo que não estejam relacionados ao modo hierárquico ditado pelo sistema dominante. Partindo desta introdução, o texto se alinhava pela postulação e aprofundamento do conceito de ecosofia, tem o rio como uma conexão teórica e prática de questões que atravessam o campo pessoal, o social, o político e o educacional.
1 https://www.pedagogiadorio.com.br/projetos/v%C3%ADdeo-atravessamentos
2 https://www.pedagogiadorio.com.br/projetos/palavras-marcadas
3 https://www.pedagogiadorio.com.br/projetos/cart%C3%B5es-postais
Existem duas indicações para a origem do conceito que, embora se correlacionem, se diferem epistemologicamente em sua abordagem. A primeira origem do termo aponta para autoria do filósofo o norueguês Arne Naess (1912 – 2009), que em 1970 observou que o pensamento e a prática ecológica estavam em transição do antropocentrismo (o homem como medida para o entendimento do mundo) para o biocentrismo (todas as formas de vida têm valor). Segundo Dayane Melo da Silva (2019, p. 72), esta nova concepção coloca o homem junto a todos os seres vivos, ultrapassa a visão utilitarista e pragmática para compreender os valores intrínsecos das coisas e tem o lugar da humanidade em um espaço integrado à biosfera. O filósofo ainda desenvolveu o termo ecosofia para o que chamou posteriormente de ecologia profunda, seguindo os mesmos princípios do biocentrismo.
A segunda origem do conceito foi desenvolvida pelo filósofo francês Félix Guattari (1930 – 1992), com a interpretação de que a ecosofia é composta por três eixos: social, mental e ambiental. Sua análise relaciona de modo lógico e heterogêneo o que é natural e o que é cultural com o que é meio ambiente e o que é ser humano. Para o autor, são as incessantes transformações técnico-científicas que desencadeiam desequilíbrios ecológicos ameaçadores para toda a diversidade de vida existente. Os modos de vida individual e social estão contaminados pelo consumo da mídia, padronizando comportamentos e relações interpessoais, comprometendo “a relação da subjetividade com sua exterioridade – seja ela social, animal, vegetal, cósmica [...]” (Guattari, 2012, p. 08). A definição de ecosofia para o filósofo, não é a caracterização de uma disciplina, mas sim uma prática ética, política e estética que intenciona a retomada do ser humano e de seu modo de viver em sociedade com o meio ambiente.
Ao se deparar com esta palavra, pode-se pensar à primeira vista que seu significado indica estar relacionado apenas as questões ecológicas e filosóficas. Antes de adentrar ao tema, é preciso diferenciar a definição das palavras ecologia e ecosofia. A ecologia foi criada pelo cientista alemão Ernest Heackel (1834-1919) pela derivação do grego Oikos = Casa + Logos = Estudo, para designar sobre a relação entre os seres vivos e sua interação com o meio ambiente. Já a ecosofia, têm sua construção deriva da combinação das palavras gregas Oikos = Casa + Sophia = Sabedoria, ou uma sabedoria do habitar (Melo da Silva, 2019). De certo modo, este neologismo, está associado a estes conceitos pela busca de um equilíbrio ecológico, mas também tem alcances nos princípios éticos, políticos e estéticos da sociedade.
O pensamento ecosófico de Guattari serve como uma bússola para esta pesquisa que explora transversalmente o rio fazendo uso dos três eixos proposto pelo autor: o social, o mental e o ambiental. Tomemos como exemplo a narrativa construída no documentário Atravessamentos- memórias sobre o Rio Manoel Alves: em todos os relatos, existe o mesmo sentimento de que a forma de uso e manejo do rio, alterou a paisagem, o meio ambiente e principalmente a relação entre ser humano e rio. Tal situação expõe o quanto os fenômenos poluidores estão atrelados a mudança de nossos hábitos, atingindo também fauna, flora e qualquer construção coletiva de ser-água e ser-humano. Esta necessidade de progresso a qualquer custo, são questões socioecológicas decorrentes da colonização dos desejos pelo capital conforme visto em Suely Rolnik (2018), e impedem que aconteçam outros tipos de escuta e envolvimento entre seres humanos e não humanos.
Em termos de uma perspectiva ecosófica, comprometida em discutir questões relacionadas à invasão, ao genocídio dos povos originários que habitavam a região do extremo sul de Santa Catarina e toda a lógica da economia capitalista, se torna necessário fazer emergir a ameaça à vida provocada pelas transformações técnico-científicas-sociais. Tendo em vista o assalto destes modos contínuos de produção, Ailton Krenak (2020, p. 22) faz as seguintes perguntas sobre a dissociação entre humano e natureza: “recurso natural para quem? Desenvolvimento sustentável para quê? O que é preciso sustentar?” Neste rastro de que existe apenas uma história que impera e invisibiliza a diversidade de povos e de existências, o pensador indígena nos lembra sobre como esta construção social nos distancia do nosso lugar:
A ideia de nós, os humanos, nos descolarmos da terra, vivendo numa abstração civilizatória, é absurda. Ela suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de vida, de existência e de hábitos. Oferece o mesmo cardápio, o mesmo figurino e, se possível, a mesma língua para todo mundo. (Krenak, 2020, p. 22).
A cosmovisão de que trata Krenak, é produzida por um saber situado, construído pelas conexões entre seres humanos e ecossistema e é aqui que se assume a responsabilidade pela própria vida. Assim como Guattari (2012) que escreve sobre as “marchas a ré” que a natureza pode reservar quando não existe uma gestão coletiva e responsável que oriente as ciências e as técnicas para as finalidades humanas. Não se trata de querer voltar ao passado e retomar as antigas maneiras de viver, mas sim de admitir que é preciso lidar com os fatos e buscar uma reorganização dos métodos utilizados pela cosmovisão. “Mais do que nunca a natureza não pode ser separada da cultura, e precisamos aprender a pensar ‘transversalmente’ as interações entre ecossistemas, mecanosfera e Universos de referência sociais e individuais” (Guattari, 2012, p. 25). Perceber a urgência destas propostas é também entender que a humanidade precisa reassumir a si mesma para continuar tendo história.
Um modo “não harmonioso” que evidencia como as transformações comportamentais, sejam elas individuais ou coletivas, têm descolado de maneira absoluta o ser humano desse organismo que é a terra. Neste frame, o rio enquanto forma e força, coloca para funcionar sua engrenagem maquínica, que ao fazer girar a roda d’água, abre espaços e movimenta os fluxos entre humanos e não-humanos. Os encontros realizados nas margens do rio para compartilhar as experiências cotidianas entre rio e ser humano, soam como um convite para mergulhar nestes questionamentos sobre o lugar que queremos viver, tendo em vista a experiência enquanto indivíduo, mas também enquanto comunidade. Ainda referenciando Krenak, são também as histórias que, ao serem contadas, abrem espaço para que a vida possa fluir em sua potência como um exercício de fabulação, e assim é possível adiar o fim do mundo. Neste processo de aprendizagem integrativa, as memórias corporais também são naturais.
Ao provocar este tensionamento entre o elemento rio e os princípios ético-estéticos do ser-humano, em vez da ecologia, é o conceito de ecosofia que justifica como estas associações podem contribuir para os processos formativos. Isso porque a ecologia é também um produto aliado a todo o sistema de produção vigente, que se preocupa em fazer alguma coisa com o próprio lixo produzido e que ainda utiliza isto como estratégia de marketing (Krenak, 2020). Não há aqui uma oposição a ciência ecológica da conservação, apenas a intenção de problematizar a ecologia como sugere Ana Godoy (2008, p. 23): “para abrir espaços de vida por ela interditados pela idealização da vida como algo possível de ser aprendido pelo conhecimento.” Sabe-se da importância que a ecologia tem como área do conhecimento, de preservação do ambiente e da vida como uma reparação às mudanças comportamentais do ser humano. Porém, esta concepção que faz parte de discussões nos diversos setores da sociedade como na política, na educação, na economia, na arte e nas mídias, apresenta apenas uma ideia de conservação.
Neste sentido, Ana Godoy (2008, p. 56) comenta que existe nesta ecologia maior, um padrão dominante que reproduz as verdades do mundo. “Não se questiona a verdade da ecologia maior, mas sim o valor do conhecimento que ela exprime, sua capacidade de criar e instituir valores que não prescindem da crença na verdade”. Ao falar sobre ecologia maior, a autora referencia o conceito de maior e menor criado por Deleuze e Guattari para tratar sobre a literatura de Franz Kafka. O empréstimo do termo é utilizado como uma ferramenta para diferenciar a ecologia dominante (maior) – a que cria suas verdades e políticas de acordo com seu interesse uniformizantes -, e a ecologia como expansão da vida (menor) – a que cria e experimenta outras relações com o mundo e as coisas. “A ecologia maior é o estudo da casa como viabilidade de conservação do Mesmo; a menor das ecologias ocupar-se-á dos modos de invenção do novo, aspectos dos modos de existência [...]” (Godoy, 2008, p. 152). No contexto de um rio, a ecologia da conservação (maior) pode atuar como uma panfletagem para as campanhas políticas mostrarem a criação de parques, estações ecológicas, reservas ambientais ou projetos de limpeza, sem necessariamente tratar dos problemas relacionados ao uso e manejo da água. Diferentemente é o contexto de um rio pela perspectiva do menor, que ao reconhecer como as diferentes formas de habitar o corpo-rio estão entrelaçadas e comprometidas com os modos de utilização das suas águas, abrem espaços para que outros modos de existir, que não utilizem o rio apenas como recurso, possam se fazer presente. Para isso, Guattari (2012) sugere que haja uma nova referência ecosófica, indicando linhas de recomposição das práxis humanas nos mais variados domínios, sejam eles individuais ou coletivos. Uma revolução que deverá alcançar as formas visíveis e estruturais da sociedade bem como as forças sensíveis do ser humano.
Em seu livro As três ecologias, que teve sua primeira publicação em 1990, o autor discorre sobre como a divisão econômica entre Leste e Oeste ou Norte e Sul, diante dos fatos históricos e dos contextos políticos, puderam modificar comportamentos e pensamentos do ser humano. Como tentativa de reverter este quadro, o autor define as três práxis ecológicas da seguinte maneira: ecosofia social, que visa trabalhar com a relações humanas a fim de modificar e reinventar as maneiras de se relacionar; a ecosofia mental ou subjetiva, que se detém na psique e no consciente do sujeito enquanto indivíduo, reinventando o sujeito com o corpo, seus fantasmas e com os mistérios da vida e morte; ecosofia ambiental, que se volta para a preservação das espécies frente as catástrofes ambientais provenientes da ação humana.
É no conjunto dessas frentes emaranhadas e heterogêneas que, parece-me, deverão articular-se as novas práticas ecológicas, cujo objetivo será tornar processualmente ativas singularidades isoladas, recalcadas girando em torno de si mesmas. (Guattari, 2012, p. 34).
Para que as três ecologias sejam colocadas em prática, importa organizar novas práticas micropolíticas e micro sociais, aliadas a novas práticas estéticas que favoreçam a formação do inconsciente – o lugar de produção do desejo. O inconsciente como potência de existir, que sobrevém a análise psicanalítica de desejo como falta e explora as relações de poder impostas pelo modelo de produção capitalista, para assim desenvolver práticas ecológicas sociais e políticas que saiam dessa situação e que contribuam com o desenvolvimento da humanidade. Com esta proposta de novas abordagens de trabalhar a ecologia por práticas de formação subjetiva, que problematizem as questões políticas, sociais e econômicas em que vivemos é, pela perspectiva do filósofo, uma forma se trabalhar a ecologia pela emancipação do indivíduo, sem que sua imagem esteja vinculada apenas a uma pequena minoria de ambientalista, amantes da natureza e de comunidades que dependem das reservas naturais para sobreviver.
Diante destas questões encontradas nos escritos de Guattari, a ecosofia por estar integrada às transformações do ser humano enquanto indivíduo político e social, não pode ser tratada como uma disciplina ou como algo isolado. Ela está relacionada a um processo de reconstrução das identidades sociais e subjetivas de forma criativa e heterogênea, ao que o autor denomina de ressingularização. Esta prática tornaria indivíduos, bem como as escolas, mais solidários e cada vez mais diferentes (Guattari, 2012, p. 55). Sendo assim, a ecosofia deve provocar práticas especulativas renovando as atuais práticas dominantes que orientam o ser humano, a sociedade e o meio ambiente.
Novas práticas sociais, novas práticas estéticas, novas práticas de si na relação com o outro, com o estrangeiro, com o estranho: todo um programa que parecerá bem distante das urgências do momento! E, no entanto, é exatamente na articulação: da subjetividade em estado nascente, do socius em estado mutante, do meio ambiente no ponto em que pode ser reinventado, que estará em jogo a saída das crises maiores de nossa época. (Guattari, 2012, p. 55).
E como seriam estas práticas capazes de intervir nestes três eixos? O que fazer com massificação do sujeito diante da influência da mídia? Como abrir espaço para a criação, para a pesquisa e para que aconteça a reinvenção deste olhar para a natureza? Para que aconteça esta revolução ao qual Guattari sustenta, é preciso construir sistemas que articulem as três práticas ecológicas para além da produção de bens materiais; trata-se de desenvolver ações em pequena e média escala que considerem as atitudes sociais, os desejos, a subjetividade e a preservação das espécies. Desta forma, por contribuir com estas discussões que atravessam o campo social e ambiental, a ecosofia revalida seus fundamentos como uma prática educacional ética-estética. Por meio das três ecologias do autor, é que foi possível estabelecer uma relação com o rio e seus mananciais; com os moradores que se beneficiam da água deste rio e com a economia local.
Imagem 1 a 4 - Frames do vídeo Atravessamentos: memórias sobre o Rio Manoel Alves.
Entrevistado: Idoclécio Dal Toé.
8'48" a 9'03"
Uma abordagem que começa com um problema, que leva a sério o chamado de Guattari, de não se ater os mitos da sustentabilidade gerados pela economia de produção, mas que em vez disso procura problematizar sobre como esta economia pode ser danosa para a saúde do homem e da terra, requer que se criem estratégias para descobrir não uma solução, mas condições de que possa existir uma ecologia aberta para as variáveis e que possa estar conectada com a sabedoria do habitar. O documentário que conduz esta escrita e que também atravessa toda a construção desta pesquisa, contém a dimensão de um rio que habita a terceira margem1, onde os aspectos do rio são abordados pela afectividade e pelos seus ensinamentos. Neste tempo de pausa para escutar e aprender com o Rio Manoel Alves, aparece uma nova relação entre ser-humano e rio, que sob um viés poético, transforma-o em um saber-água. Assim nasce a Pedagogia do Rio, que quer se afirmar como um conjunto de enunciados educacionais para uma formação ética-estética, abordando as relações entre as ecologias terrenas e as ecologias subjetivas.
O tema da pesquisa, “Pedagogia do rio: um convite para pensar a educação em arte”, surgiu quando as pesquisas artísticas sobre o Rio Manoel Alves já não davam mais conta de atender as necessidades práticas: foi preciso então adentrar em outros territórios para pensar sobre e com o rio. Nesta confluência que desaguam em mais criações, em mais questões a serem resolvidas tanto pelo viés prático quanto pelo teórico, as referências não cessam de aparecer. Pois, é a partir das capturas de algo, de alguém ou de alguma situação que a criação acontece. Esta situação coaduna com o que Deleuze chamou de intercessores, que podem ser pessoas como filósofos e artistas, ou então coisas, plantas e bichos. “Fictícios ou reais, animados ou inanimados, é preciso fabricar seus próprios intercessores” (Deleuze, 1992, p. 156). Assim as conexões entre a produção artística e teórica estabelecem relações de troca de maneira intrínseca, buscando respostas para as seguintes perguntas: O que o rio pode nos ensinar? O que podemos aprender com o rio? Como o rio pode movimentar processos subjetivos artísticos e estéticos? A partir do reconhecimento de que os problemas decorrentes do descaso com o rio não serão trabalhados se não considerar toda a construção social de manejo de suas águas, constata-se que será preciso uma construção coletiva que priorize uma melhor interação entre ser-humano e ser-natureza.
Neste fluxo alternante que é uma pesquisa, cheguei a uma questão que conflui com os trabalhos realizados, com as pesquisas, com os desejos e também com uma visão de mundo: como o rio pode movimentar práticas pedagógicas? A educação passou a ser uma ferramenta para pensar pela perspectiva do saber-rio, os conteúdos que fazem parte de um contexto de ensino e de aprendizagem, bem como os saberes comuns vinculados a superfície da terra. É neste sentido que o rio dinamiza um campo de possibilidades para práticas pedagógicas, tornando-se uma referência para pensar as práticas ético-políticas e estéticas. Como um dispositivo analítico e ao mesmo tempo produtor de subjetividade (Guattari, 2012). A Pedagogia do Rio é um projeto que não pertence as formas de hierarquização do conhecimento entre o que se ensina e o que se aprende, pois está comprometida com uma educação para Gaia, Géia ou Terra, em que o elemento rio é traçado junto a experiência da aprendizagem.
A Pedagogia do Rio é um caminho a ser trilhado entre as três margens do rio, ou um rio que pode ser navegado com barquinho de papel, ou ainda um mergulho nas bases geofilosóficas que procuram compor pelas práticas pedagógicas em artes visuais, uma formação ética-estética com o rio.
A construção pedagógica tem como um dos pontos de partida o processo de ocupação do território ao qual o Rio Manoel Alves está inserido. Assim como em quase todo lugar colonizado, a ocupação das margens do rio se deu pelo acesso à água para moradia, atividades do cotidiano, agricultura e consequentemente, a exploração dos recursos naturais. Neste processo de desenvolvimento da sociedade, fica evidente como os avanços socioeconômicos que impactaram nas dinâmicas naturais da água, continuam sendo justificadas pelos beneficiamentos que proporcionam. No contexto do Rio Manoel Alves, tal situação pode ser observada pela retirada de pedras para serem usadas nas construções de estradas, casas e aterramentos; desvio do curso do rio para irrigação agrícola ou para desviar da área do plantio; retirada da água com uso de motores para irrigação agrícola; poluição oriunda das indústrias locais; saneamento básico ineficiente e principalmente, o envenenamento das águas do rio com o uso dos agrotóxicos. Ainda assim, em 2016 o Conselho Estadual de Recursos Hídricos (CERH) do Estado de Santa Catarina, deliberou o projeto piloto de outorga da água para o setor irrigante da bacia do Rio Araranguá em que o Rio Manoel Alves está inserido. Esta concessão de uso da água feita pelo órgão responsável, já acontecia para setores como: hidrelétricas, mineração, indústrias e abastecimento humano, pois toda captação de água, subterrânea ou superficiais, precisa ser autorizada pelo Estado.
Este processo de outorga iniciou com os produtores que tem suas propriedades nas margens do Rio Manoel Alves, que em época, tinham o prazo de 12 meses para entrar com a solicitação. Porém, devido as especificidades da região, o CERH publicou no dia 02 de abril de 2018, a resolução de nº 019, que altera o prazo para 24 meses tendo em vista o seguinte argumento: “[...] região que possui diversos conflitos pelo uso da água e considerando as dificuldades encontradas no processo de mobilização e articulação dos setores para aplicação da metodologia desenvolvida [...]” (Estado de Santa Catarina, 2018). Tal situação é decorrente das disputas e interesses de agricultores pelo uso da água para beneficiamento de sua produção, que entram em conflito principalmente no período de plantio do arroz, quando a água do rio não é suficiente para todos. Ao considerar que estes usos do Rio Manoel Alves contribuem para o processo de poluição das águas, sendo autorizados legalmente pelos órgãos estaduais e regionais que administram os recursos hídricos, cabe indagar sobre a ausência de contrapartidas pelos que logram desta entidade apenas como recurso.
O agrônomo e ambientalista brasileiro José Lutzenberger (2012), que teve parte da sua vida trabalhando em indústrias químicas especializadas em fertilizantes agrícolas e outra parte atuando contra o uso destes insumos em defesa do meio ambiente, relata em seus livros sobre como a agricultura que deveria ser o principal dos fatores de saúde do homem, é um dos principais fatores de poluição. Junto com a apropriação do território, os rios também foram colonizados por estas ações que se apropriam de suas águas enquanto recurso e enquanto paisagem, contribuindo para a perda da biodiversidade e para o afastamento entre ser humano e rio.
Esse reconhecimento do uso do rio enquanto espaço social aqui identificado, bem como o comportamento natural do curso da água, é essencial que seja feito previamente para que outros futuros, diferentes dos futuros já delineados, possam ser colocados em prática. Retornemos aqui a ação que fez parte do documentário Atravessamentos: memórias sobre o rio Manoel Alves, de fazer um barquinho de papel, colocar sobre a superfície da água para ser carregado pela correnteza e conter as intenções de um rio no futuro, para um povo por vir. Isto serve não apenas para os municípios atravessados pelo Rio Manoel Alves, mas para toda a população que se beneficia com o uso das águas. Em suma, a Pedagogia do Rio pode ser compreendida como estes processos de ensino e aprendizagem que objetivam experienciar os conteúdos relacionados ao rio, através de práticas pedagógicas nômades. Da mesma forma, ela também indica uma prática movente e transversal, de modo a incorporar à sua perspectiva ecosófica, a temporalidade, a espacialidade e as materialidades do rio como recursos para a prática pedagógica em arte.
Por estes meandros conceituais, a geofilosofia de Deleuze e Guattari (2010) segue no mesmo fluxo por compreender que o pensamento se faz na relação entre o território e a terra. Ao associar o pensamento com a terra, os filósofos se referem a existência de uma geografia mental a partir de uma perspectiva geográfica. Pois, diferentemente de outras perspectivas filosóficas, o pensamento não se faz somente em relação ao sujeito e objeto, mas sim pela relação primeira com a terra. “Pensar não é um fio estendido entre o sujeito e o objeto, nem uma revolução em torno do outro. Pensar se faz antes na relação entre o território e a terra” (Deleuze; Guattari, 2010, p. 103). Com um recorte pontual sobre o conceito, a questão nasce como uma crítica à origem da filosofia por estar associada a um lugar, sendo que para os autores, a filosofia não depende de uma origem, mas de um meio. Esse meio é a imanência, um espaço por onde os conceitos se move e que orienta o pensamento. Para os autores, a filosofia é decorrente deste exercício do pensamento entre quem habita um lugar e se relaciona com este território.
Entramos aqui, em uma outra questão que é cara aos autores: o território, que é diferente da terra e que apresenta “duas zonas de indiscernibilidade, a desterritorialização (do território à terra) e a reterritorialização (da terra ao território)” (Deleuze; Guattari, 2010, p. 103). A desterritorialização possui duas formas de pensar, denominadas de modo relativo que é quando o pensamento se relaciona com os fatores físicos como a geografia, os astros e o cosmo, e de modo absoluto que é quando a terra entra no plano de imanência do pensamento.
Resta que a desterritorialização absoluta só pode ser pensada segundo certas relações, por determinar, com as desterritorializações relativas, não somente cósmicas, mas geográficas, históricas e psicossociais.” (Deleuze; Guattari, 2010, p. 107).
A partir desta relação do pensamento com o território e a terra, seria possível falar de um pensamento que nasce com o fluxo do rio? Para os autores, isto é possível desde que o pensar ocorra sobre o plano de imanência e esteja povoado de conceitos e figuras. O que se exclui, é a ideia de que a filosofia apresente apenas necessidades interna, pertencente ao seu campo conceitual. A filosofia acontece do encontro com as questões da terra, que se manifesta pelas suas características sociais e políticas, por isso uma geofilosofia. O rio passa a ser este plano onde o pensamento acontece a partir da interação entre terra - ou então a água - e quem o habita, seja suas margens ou seu interior. Este conceito também se afirma no pensamento de Paola Zordan (2019) em sua publicação Gaia Educação: arte e filosofia da diferença, ao abordar as questões da educação e da ecosofia por esta perspectiva da geofilosofia:
Pensar Gaia como um corpo vivo, interagindo com os demais corpos, é tirar o humano do centro de atenção e compreender que todos os corpos criados se interconectam num único ser. [...] Agir em prol do planeta é parar de pensar somente no humano, abrindo a perspectivas de pensamento em que máquinas criadas pelos humanos e as forças da natureza possam coexistir sem que a humanidade se sobreponha à saúde planetária. (Zordan, 2019, p. 13).
Como se a Terra fosse uma pele que revestisse todas as formas de vida que nela habitam e tudo que é feito dentro desta camada, influi a todos. Esta perspectiva aproxima a prática docente da Terra, procurando equilibrar o conhecimento científico e o conhecimento prático que este lugar exige. O modo de vida contemporâneo tem gerado uma reação em cadeira que começa com a manipulação do desejo pelo capital, impulsionando para o consumo e para a necessidade de ter coisas, que geram pilhas e pilhas de resíduos pouco recicláveis, ou quando possível, possuem um custo mais alto para reciclar que fabricar um novo produto. Os saberes necessários que constroem os modos como nos relacionamos com a Terra, são os mesmos saberes que destroem toda a essência da vida em prol de um desenvolvimento de valores tacanhos. Não se trata de propor uma abordagem para coleta, separação e reutilização dos resíduos, mas de provocar mudanças nas bases do pensamento humano. A Pedagogia do Rio tem como princípio, um primitivo conhecimento que se dá pela ação de utilizar as matérias da Terra de maneira que as mantenham saudáveis.
Tem tempo que o ser humano vem sendo substituído pelas máquinas e perdendo suas habilidades manuais de fazer coisas, de produzir objetos e até de realizar atividades corriqueiras. Este distanciamento da manualidade bem como do processo de criação que ela proporciona, inibe as descobertas e surpresas do desconhecido que são pertencentes a este tempo da criação. Deste modo, Paola traz a arte em seu pensamento geoplástico, para proporcionar um plano de composição que movimente outros modos de pensar. Por isso que, para a autora, pensar com arte “é pensar com as matérias da terra, com suas formas, com modos de expressão que jamais se apartam dos corpos dos instrumentos e elementos dos quais a que a arte se fez valerem suas mais variadas manifestações” (Zordan, 2019, p. 14). É uma perspectiva ecosófica que aproxima às ecologias terrenas das ecologias subjetivas interpessoais, envolvendo o que ela chama de produções geoplásticas. O pensamento geoplástico condiz com esta interação que a arte pode provocar entre ser humano e ambiente físico, como um facilitador para novas experiências e interações com o mundo.
Essas produções consideram como relevante tanto o fazer artístico que uma obra de arte necessita, como o aprender com um agricultor analfabeto. A pretensão é unir o conjunto dos costumes e hábitos que fundamentam os saberes nas dimensões institucionais e domésticas, possibilitando que a sala de aula aconteça em outros contextos, com “uma estética existencial que promova novos valores nas relações entre o que humanos fazem e o que a terra nos oferece” (Zordan, 2019, p. 15). Ao valer-se da arte como uma ciência não acadêmica, anterior as divisões iluministas do conhecimento, que utilizavam a partir da razão, os conhecimentos, técnicas e procedimentos sobre a matéria com resultados úteis, a arte de Gaia Educação prolifera invenções que nem sempre estão relacionadas a algo útil, pois está voltada para ao espírito.
Numa Terra em que quase todo ouro já subiu a superfície, os devires da arte respondem aos acasos e às sensações, forças que a ciência não encontra nenhuma maneira para dar conta. [...] a arte é potência virtual, nunca acabada, nunca completamente codificada. (Zordan, 2019, p. 59).
O movimento que impulsiona a arte em Gaia Educação é o desejo pela aprendizagem, uma vontade de aprender com a matéria e levá-la a sua profundeza. A Pedagogia do Rio é este desejo de criar e extrair do rio, muito mais do que ele pode nos dizer. É perceber em seus signos ocultos, as intensidades que são próprias de todos os elementos que o compõe. Portanto, interessa a Pedagogia do Rio, tencionar relações de existência entre ser humano e natureza, entre ser humano e rio, atravessando o plano de imanência com uma educação voltada para uma formação ética-estética. É preciso experimentar este rio, provar pela arte, pela filosofia e pela ciência, como operacionalizar a diversidade de saberes. Pois a prática da educação transversal, aliada a arte, filosofia e ciência, pode provocar mudanças significativas nos modos de viver e pensar este mundo. E isto requer que seja adotada, o que Deleuze e Guattari chamam de existência ética-estética, para que haja um aprendizado experienciado e comprometido. Não se trata de um procedimento pedagógico, que procura manter o controle dos alunos e conduzi-lo a um objetivo pré-estabelecido, mas sim de criar modos singulares de ensinar e aprender.
O pensamento com o rio não está alheio a sociedade, ele se faz num plano relacional democrático e coletivo, com a junção da estética (a arte) e os conceitos (a filosofia), pois qualquer ação interfere na vida da comunidade. A partir desta aproximação da geofilosofia com a Pedagogia do Rio, é que arrisco dizer pela perspectiva ético-política e estética da ecosofia, que a possibilidade de criar outras versões de rio, diferentes daqueles que habitam o futuro provável de um rio seco e envenenado, depende da oportunidade de dar voz ao rio como um chamado à existência. Assim, a problemática desta pesquisa é fazer com que a arte possa abordar o território dos saberes de forma transversal e criar práticas pedagógicas em que a aprendizagem seja produção de diferença.
1 ROSA, João Guimarães. “A terceira margem do rio”. In: ______. Ficção completa: volume II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 409-413.
Figura 1 a 10 - Frames do vídeo Atravessamentos: memórias sobre o Rio Manoel Alves.
Entrevistada: Josemeri Peruchi Mezzari.
13’09’’ a 13’37’’
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GODOY, Ana. A menor das ecologias. São Paulo: Editora USP, 2008.
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Sites Consultados
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