Meleiro, outono de 2024.
(Um dia úmido)
Aos rios que voam
Escrever é estar no extremo
de si mesmo, e quem está
assim se exercendo nessa
nudez, a mais nua que há,
tem pudor de que outros vejam
o que deve haver de esgar,
de tiques, de gestos falhos,
de pouco espetacular
na torta visão de uma alma
no pleno estertor de criar."
João Cabral de Melo Neto
O que faz a arte? Qual a escrita possível numa época que necessita de leitores? A escrita é necessária para quem faz ou para quem lê? Digo ser necessária pois enquanto a faço, também me refaço por ela. Quando uma escrita se finda, já não sei mais se são apenas palavras ou um poema. A criação tem disso, de capturar quem cria e expor nu diante dos leitores. É uma vista que se faz entre olhar para fora e o fora olhar para dentro de um cárcere privado nas metáforas. Escrita avessa, o avesso da escrita. Palavras despidas de moralismo e vergonha, se alinham pela vontade de escrever alguma coisa pelas experiências vividas. São palavras que se fazem pelo lado de dentro de quem escreve e de quem lê. Por isso que a poesia é necessária, pois celebra a cada palavra, camadas de sentidos a ruinar.
Escrever uma carta à arte, só poderia principiar pela arte da palavra: a literatura. Foram elas que inundaram meu sertão existencial e incitaram todo este movimento. Pois, como bem alertou Guimarães Rosa3: “sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte que o poder do lugar”. Foi pela leitura de Grande Sertão: Veredas que, mesmo sendo uma publicação antiga, me aconteceu na fase adulta. E digo aconteceu porque uma escrita pelo avesso, expõe nas entrelinhas, espaços para a construção de outros sentidos. “Sertão é o sozinho”, “sertão é dentro da gente”, “o sertão é do tamanho do mundo”, sertão é o que se empurra para trás e que depois volta a rodear por todos os lados. Sertão é quando menos se espera, quando saímos. Neste sertão de paradoxos entre ficção e realidade móvel, tudo pode, só não pode o repouso. O eixo líquido do rio é que abre um canal de travessia entre as margens e cria a terceira margem. Rio passou a ser território frequentado entre as instâncias reais e fictícia que compõe a existência. E assim, palavras foram sendo enxarcadas pelo rio, memórias foram sendo abandonadas nas margens das estrofes, se fazendo em versos rasos e ligeiros, que desejavam capturar as métricas deste corpo-rio.
O conhecimento contido na poesia é salvação e abandono, que transforma o mundo e revoluciona naturezas. Compõe uma leitura de mundo e se abre para outros mundos compartilhados por aqueles que se exercitam com a leitura de um poema. Exercício para experimentar, testar e treinar os próprios limites e desempenhos, para deixar de ser algo que apenas passagem. Octávio Paz² disse que poesia é “experiência, sentimento, emoção, intuição, pensamento não dirigido. Filha do acaso; fruto do cálculo”. A poesia não possui nada que a sustente, ela se esvai, está à deriva e seu único encontro é em si mesma.
Foi por este mergulho existencial que a poesia se tornou necessária para sobrevivência. Poesia que pelos ensinamentos de Paz, nem sempre requer um poema, pois se abre para paisagens, pessoas e fatos, numa condensação de acasos. Por estes acasos, um rio sonhou um corpo nadando em suas águas. Um corpo sonhou o rio deslizando sua pele. Corpo e rio se tornam mais que palavras, se tornaram poesia com a linguagem sonhada.
A temática lírica predominou pela dupla captura entre sujeito e água, transformando sensações em correntezas. Um estado de atenção feito de boca, ouvidos, olfato, pele e olho d’água.
³ ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 25
² PAZ, Octavio. O arco e a lira. Tradução de Olga Savary. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982. p. 15.
A água arrepiada pelo vento
A água e seu cochicho
A água e seu rugido
A água e seu silêncio
A água me contou muitos segredos
Guardou os meus segredos
Refez os meus desenhos
Trouxe e levou meus medos
Caetano Veloso
Nesta carta à arte, a música em seus diferentes ritmos, foram entonando esta relação intrínseca entre elemento vital e simbólico, ser humano e água. Cantor e compositor, podem ser o fio que conduzem e transformam as matérias que chegam com o acaso, nesta corrente poética.
As manifestações de sons, ritmos e modulações da música, foram os movimentos que colaboraram na conexão entre os elementos do mundo real e do mundo sensível. Na procura pelo canto da água, Hermeto Pascoal4 mergulhou para escutar os sons de altura indeterminada. Este elemento faz parte de uma paisagem sonora e foi estudado por Murray Schafer (2001) como ecologia acústica. “A água nunca morre, e o homem sábio rejubila-se com ela. Nem mesmo duas gotas de chuva soam do mesmo modo, como o ouvido atento poderá comprovar”5. Seu livro Afinação do mundo, uma espécie de catálogo que contém escutas e textos sobre os sons que compõem o mundo, referencia uma época de experimentação e criação de um sistema que buscava a grafia do som.
Rio como música compõe paisagens sonoras que se modificam em cada dia. Neste conjunto de sons, foi que ouvi rio silenciado, rio gritaria, rio pronunciado, rio ignorado. Só ouve o rio quem, mesmo estando longe, o têm, cantou Arnaldo6. E junto, chegou o mito da serpente7, que serpenteia rio e principia vida no coração que bombeia. Destes versos e sons ausentes de beira, água e rio puderam ser conjugados pelo abismo de uma cachoeira. A água em seus três estados, condensaram o lugar comum do rio em paisagens habitadas pelo pensamento da arte. O comum do rio que atravessa em diferentes modos e intensidades as vidas, casas, ruas e pratos, alcança outros horizontes pela perspectiva da arte.
Rio precisa da palavra para ser verbo, substantivo, advérbios, artigo definido e indefinido. Palavra que precisa do rio para ser literatura, música, pintura, imagem. A curiosidade pelos fluxos, pelos minérios e mistérios que, a todo instante, produzem diferenças com as mesmas referências. A linguagem universal da literatura do rio, só pode ser acessada da terceira margem8. Lá onde as insígnias, símbolos, sons e texturas exibem suas qualidades invisíveis. O direcionamento é dado quando a palavra assume a proa para encontrar no fluxo contrário do rio, a voz das águas9. Verbos intransitivos que despertam curiosidade pelos procedimentos e origem das coisas, são verbos que se conjugam na experiência estética da arte.
As práticas Situacionistas10 passaram a ser referência na observação dos lugares por onde o rio passa. O movimento substancial do corpo-rio, acontece ao se deslocar intuitivamente pelo território, desbravando e registrando os conhecimentos gerados. O ato de caminhar pelas taipas, foram permitindo que o rio fosse praticado e mapeado, tanto pela realidade como pelos afectos. Percorrer estes territórios pela prática cartográfica, despertou interesse em apreender as escalas que compõem as paisagens do rio em palavras e imagens.
A arte passou a ser este elemento fundamental para pensar e habitar o rio como potência criadora de perceptos e afectos. Penso a arte com Gilles Deleuze e Félix Guattari11 (2010), que observa a composição da arte em blocos de sensação: percepções captadas através dos sentidos, afeções intensivas e transformadoras. Afectos que se metamorfosearam e escritas, livro, documentário e fotografias. Ainda lembro de quando o rio escreveu em minha memória as suas primeiras palavras feitas de banhos e enchente. Foram estas as referências primárias que o rio conduziu o desejo de chegar em outros rios de palavras, imagens, música e gente.
Aos rios que voam, é uma carta aberta à arte, que embora seja ausente de destinatário, quer encontrar leitores ávidos e assim construir novas conversa. Porque uma arte que importa, é aquela que desloca e inunda os sentidos pelos encontros inesperados. Carta feita de barquinho de papel12 que flutua sobre estas águas, a fim de se metamorfosear em mar, chuva, nuvem, suor ou lágrima. Os conteúdos desta carta abarcam elementos de uma pedagogia do rio que se faz pelo movimento do eterno aprender.
4 Hermeto Pascoal. Música da Lagoa. 1985. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=skzyqTO6YzM>. Acesso em: 04 abr 2024.
5 SCHAFER, Murray. A afinação do mundo. São Paulo: Editora UNESP. 2001. p. 27
6 ANTUNES, Arnaldo. Azul Vazio. Álbum Disco. Faixa nº09. 2013.
7 KEHIRI, Tõrãmu. Antes o mundo não existia: mitologia dos antigos Desana-Kehíripõrã. São Gabriel da Cachoeira: FOIRN, 1995.
8 ROSA, João Guimarães. “A terceira margem do rio”. In: ______. Ficção completa: volume II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 409-413.
9 VELOSO, Caetano. A terceira margem do rio. Álbum Circulandô. Faixa nº 08/.
10 DEBORD, Guy. Manifesto Internacional Situacionista. Publicado na Internacional Situacionista, 1960. Disponível em: < https://guy-debord.blogspot.com/2009/06/manifesto-internacional-situacionista.html>. Acesso em: 04 abr 2024.
11 DELEUZE, G.; GUATTARI, F. O que é a filosofia? São Paulo: Editora 34, 2010.
Por este imaginário aquático composto de lendas, fantasias e criações com o rio, trago neste compêndio, uma lista de outros trabalhos que derivam do mesmo tema, mas que o abordam por sintaxe, imagens e recursos outros. Trata-se de encontros, achados, sugestões, de leituras e referências que ajudaram a sustentar esta tese de que o rio também ensina.
Boiúna
Mãe-do-rio, senhora-das-água, cobra-grande, é uma lenda amazônica que fala sobre uma cobra gigante que habita o fundo das águas – rios, lagos e igarapés.
b. BOPP, Raul. Cobra Norato e outros poemas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976.
Evocação aos rios, 2022.
Instalação-performance iniciada durante o programa Artist in Residence – Munich (2022) que borda os nomes das vítimas fatais do rompimento das barragens dos municípios de Fundão e Brumadinho em 2019.
a. https://climacom.mudancasclimaticas.net.br/evocacao/
Rios (in)visíveis, 2022.
Projeto que investiga os rios de Curitiba/PR e promove oficinas à comunidade. Artistas participantes: Camila Jorge, Altieres Edemar Frei, Renata Roel, Adriana Omoto, Janaina Fukushima, Thiago Dominoni, Julia Basso, Bruno Romã.
a. https://riosinvisiveiscuritiba.wordpress.com/
Entre rios, 2011.
Documentário sobre a urbanização de São Paulo, que aborda sobre o processo de transformação sofrido pelos cursos d’água paulistanos e as motivações sociais, políticas e econômicas que orientaram a cidade a se moldar como se eles não existissem.
a. https://youtu.be/Fwh-cZfWNIc?si=GxBXBMkSzw1YRXQt
Son los rios, 1985.
Poema de Jorge Luis Borges, Los conjurados.
Somos el tiempo. Somos la famosa
parábola de Heráclito el Oscuro.
Somos el agua, no el diamante duro,
a que se pierde, no la que reposa.
Somos el río y somos aquel griego
que se mira en el río. Su reflejo
cambia en el agua del cambiante espejo,
en el cristal que cambia como el fuego.
Somos el vano río prefijado,
rumbo a su mar. La sombra lo ha cercado.
Todo nos dijo adiós, todo se aleja.
La memoria no acuña su moneda.
Y sin embargo hay algo que se queda
y sin embargo hay algo que se queja.
Rio engano, 2015-2019 // Pedra-fantasma 2013-2016 // Fundo de rio sob ruído de fundo 2011-2013
Vídeos, escritos, notas, desenhos, investigações sonoras sobre diferentes rios da artista Raquel Stolf.
a. Rio Engano: http://www.raquelstolf.com/?p=4682
b. Pedra-fantasma: http://www.raquelstolf.com/?p=3974
c. Fundo de rio sob ruído de fundo: http://www.raquelstolf.com/?p=663
Água dos matos, 2006
Expedição ribeirinha realizada em uma chalana que partiu de Cuiabá/MT rumo a Corumbá/MS levando os irmãos cantores Alzira, Jerry e Tetê Espíndola, juntamente com a cantora Luciana Carvalho para se apresentarem nas comunidades localizadas no pantanal. A expedição resultou em um CD com quinze músicas e um DVD contando sobre o projeto.
a. DVD: https://www.youtube.com/watch?v=j6DyJuCU6G0
b. CD: https://www.youtube.com/watch?v=P-BxVepW9_0
Deixa-me seguir para o mar, Mário Quintana
Tenta esquecer-me...
Ser lembrado é como evocar-se um fantasma...
Deixa-me ser o que sou, o que sempre fui, um rio que vai fluindo...
Em vão, em minhas margens cantarão as horas,
me recamarei de estrelas como um manto real,
me bordarei de nuvens e de asas,
às vezes virão em mim as crianças banhar-se...
Um espelho não guarda as coisas refletidas!
E o meu destino é seguir...
é seguir para o Mar, as imagens perdendo no caminho...
Deixa-me fluir, passar, cantar...
toda a tristeza dos rios é não poderem parar!
Grande sertão: veredas. João Guimaraes Rosa.
Livro publicado originalmente em 1956, revolucionou o cânone literário brasileiro e segue despertando interesse em novos leitores.
Rios DesCobertos: o resgate das águas da cidade, 2017.
Exposição interativa que convida os visitantes a conhecer as bacias hidrográficas dos três maiores rios da cidade de São Paulo: Tietê, Pinheiros e Tamanduateí.
a. https://estudiolaborg.com.br/lab/rios_descobertos/
A Gente Rio, 2016.
Pesquisa da artista Carolina Cayaceno realizada na Usina de Itaipu, segunda maior hidrelétrica do mundo. A artista aborda sobre os processos de licenciamento do rio, a barragem, a desocupação dos moradores e as mudanças decorrentes do alagamento.
a. http://carolinacaycedo.com/
b. https://vimeo.com/182080245
Entre rios e ruas, 2006.
Projeto que nasce do contraste observado pela artista Isabela Prado - retornando a Belo Horizonte em 2006, após cinco anos de ausência. Enquanto o Rio Cheonggyecheon, em Seul, era descoberto e revitalizado, o Ribeirão Arrudas era coberto para a ampliação de uma avenida na região central de Belo Horizonte, apagando um elemento importante na paisagem da cidade. Desde 2006, a artista vem desenvolvendo pesquisas e criações sobre o tema.
a. https://entrerioseruas.webflow.io/
b. https://www.instagram.com/entrerioseruas/?hl=pt
Rios e Ruas, 2013.
Projeto que realiza expedições urbanas periódicas a fim de explorar os rios e córregos da cidade de São Paulo, bem como as nascentes e fozes desses cursos de água. Promovem oficinas prático-teóricas, atividades esportivas e de lazer, mostras culturais, intervenções urbanas e exposições artísticas, como a exposição artemídia Rios des.cobertos. Atualmente, desenvolvem um projeto denominado “Mapa afetivo das nascentes paulistanas”, uma cartografia digital das nascentes e cursos das águas de São Paulo, construída de maneira colaborativa e descrita como “social e afetiva”.
a. https://rioseruas.wordpress.com/
Rios (In)visíveis
responsáveis pela idealização e criação da primeira cartografia digital e interativa dos rios e córregos canalizados e soterrados na cidade de São Paulo. A cartografia foi desenvolvida com o auxílio das ferramentas MapBox e Mapas Coletivos. O grupo também administra uma página no Facebook; − Cidade Azul: desenvolvem audioguias conectados a mapas digitais por meio dos quais é possível seguir o trajeto de alguns dos rios e córregos soterrados em São Paulo. Além dessa plataforma, administram um site, uma página no Facebook, Instagram, Pinterest, uma conta no Twitter e um canal no Youtube;
a. https://www.facebook.com/riosinvisiveis/
Volta Pinheiros
Coletivo e movimento que pede a revitalização do Rio Pinheiros, situado na Zona Oeste de São Paulo.
a. https://www.instagram.com/volta.pinheiros/
Arrasto, 2014.
Do artista Marcelo Moscheta, o projeto Arrasto contemplado pela Bolsa Funarte de Estímulo à Produção em Artes Visuais 2014, consistiu na coleta, classificação e documentação de materiais minerais encontrados por toda a extensão do rio Tietê/SP, da nascente até a foz no Rio Paraná/PR.
a. https://marcelomoscheta.com/Arrasto
O Menino e o Córrego, 2010.
Poesia de Manoel de Barros que faz parte do livro “Compêndio para uso dos pássaros” (1960), em Poesia completa: Manoel de Barros. São Paulo: Editora Leya, 2010.
A serpente e a canoa: flecha 1, 2021.
Audiovisual narrado por Ailton Krenak que aborda memórias presentes em tudo que é vivo. Fala sobre o início do mundo e inicia um caminhar. Acompanha uma publicação chamada Caderno Selvagem, com o roteiro na íntegra.
a.http://selvagemciclo.com.br/wpcontent/uploads/2021/05/CADERNO_23_SERPENTE_CANOA-2.pdf.