Sempre tive medo do fundo, do escuro, do intocável. Sempre fiquei ali, entre o raso e o profundo. Nunca passei aquela linha imaginária que separa a poça da correnteza. Mas sempre tive vontade de aprender as coisas por dentro. No centro, no fundo, no avesso.
Fosse eu feita de nadadeiras. Fosse eu composta por brânquias em vez de pulmões. Tivesse-me ao menos capacidade para aumentar ou diminuir a densidade corpórea para escolher entre flutuar e afundar. Mas não, coube-me descobrir pelas formas do corpo como nadar e mergulhar. Se diz: sem escamas, sem nadadeiras, sem nada, apenas com vontade.
Ou então fosse feita de minério. Daquele bem duro, compacto. Que só o tempo é capaz de partir. Que somente a força da água é capaz de fazê-lo rolar. E que deixa pedaços de si conforme avança. São bem feitos: coloridos, às vezes polido, às vezes partido, mas sempre seixo rolado. Pelo menos essa capacidade eu tenho, de rolar e, junto, transformar.
Também poderia ser riparia, que faz parte da família ribeirinha. Esse tipo de vegetação, que prefere fazer divisão. Cada um no seu lugar, água aqui, terra ali, sem muito se misturar. Se fosse eu composta por folhas, troncos ou galhos, nascida e crescida ali, na margem entre o rio e a terra, também teria a incumbência de divisar o enxuto do molhado.
Abandonei a margem e entrei, pouco a pouco. Dei passos pequenos, passos grandes, sempre movidos pelo desejo de desbravar. Portas, só de entrada. De saída também têm, mas não se sai igual como se entra. É que tudo muda e a gente muda junto. Quando o pé já não dá mais conta de caminhar, os braços têm que ajudar. Quando o corpo cansa, tem que deitar-se e então, boiar. Deixar-se levar, lavar e nadar.
Venho munida de equipamentos, o corpo é o principal. Que sente, desloca e pensa as sensações vividas. Sensações que se conectam, ao passo que se diluem. Ver com os olhos, já não dá mais. Precisa mesmo ver com os olhos das mãos, dos pés, dos braços, das pernas, das costas e da barriga. Usar o olho d’água para ver-se refletida na superfície e ser lambida pelos lampejos que passam por de baixo. Deixem-me agora confessar, aos goles da lembrança: já faz tempo que descobri que minha alma é feita de água. Não é somente água, que nem em poça parada. É água de rio, de corredeira, de córrego e às vezes também de cachoeira. Que desce a ladeira e procura pelos meandros, marcar seu próprio caminho. E mesmo que pareça ser definitivo, a cada cheia refaz este caminho.
Papel, lápis, livros, apetrechos menores. Todos abandonados na margem. De que adianta guardar em palavras, se rio não tem gramática? Também eu, às vezes, não tenho gramática. Tenho apenas soltura, tratados feitos entre o rio e algo em mim. Que faz do conjunto de regras, correnteza. Palavras que deságuam em outras palavras. Palavrató-rio! Às vezes narrativa, mas sempre diálogos. As referências chegam como afluentes, contribuições substanciais. Congregação de esforços para conquistar espaços. Foi neste curso intensivo do rio que me molhei da vida-suicídio, que sempre escorre para algum lugar.
As palavras úmidas comunicam sobre o movimento do pensamento. Já que até mesmo a língua não permite dizer tudo, foi preciso recorrer ao próprio rio, ao rio de todas as pessoas, para aprender com suas qualidades adquiridas, tudo o que ele diz quando não fala e o que não pode dizer enquanto é somente água.
Olhei em volta e me vi no meio. Na dramaturgia, intermezzo; na música, interlúdio; na vida, rio. Nasci do meio, do ventre da terra, por vários veios. Em sucessão de início e de fim. Fluxo contínuo ou lugar de passagem. Que toca as margens ao mesmo tempo que as separa. Espalho-me por todas as direções: sou rizoma. No horizonte como o curso do rio; no céu como nuvem e chuva. Direções perpendiculares e movimentos transversais, carrego junto um pouco de cada lugar. E já que abandonei a borda, transbordo! Invado espaços, reconfiguro lugares. Roubo e atropelo o que está na frente. Ao passo que levo, também deixo um pouco de marcas nas margens das lembranças.
Vantagem de ser rio é que todo dia é domingo e toda hora é engolida pelo presente. É aqui que retomo a meninice inventiva de criar genuínas insignificâncias. Crio ao passo do acaso e do pensamento. A correnteza sempre traz um novo conhecimento. É assim que, cada noite, cada dia, consulto fundamentos e invenções. Novas combinações. Somente essa junção pode trazer na diferença a transgressão. Entre o sono e o sonho, suponho que haja uma formação.
São histórias contadas de fio a fio. De gota a gota. Afluentes. Que trazem junto, conhecimentos engolidores de certezas.
Aionara Preis